“ÁRVORES VERMELHAS”, A POÉTICA DA PERDA.

Por Celso Sabadin.

Parafraseando Andy Wharol, eu diria que, no futuro, todo mundo terá um documentário. Cada vida é um mundo, e documentar histórias familiares tem se constituído numa interessante e atrativa tendência do audiovisual.  O belo e sensível “Árvores Vermelhas” é um dos exemplos mais recentes desta tendência. Primeiro longa da designer Marina Willer (do premiado curta “Cartas da Mãe”), o filme esmiúça a trajetória de seu pai, Alfred Willer, que aos 16 anos de idade foi obrigado a fugir da então Tchecoslováquia para sobreviver às atrocidades do nazismo. Seu destino: Brasil.

O drama de Alfred Willer e sua família não é muito diferente dos horrores vividos por outras milhões de famílias de judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e/ou mentais que eram sistematicamente dizimados pelo poder de Hitler. Mas a maneira como a narrativa é construída coloca “Árvores Vermelhas” um degrau acima em relação a outros documentários similares.

O filme se destaca pela sobriedade poética de suas belíssimas imagens, pela sensibilidade da trilha sonora, e pela força de seu texto narrado com maestria pelo ator inglês Tim Pigott-Smith, falecido ano passado. Evitam-se os lugares comuns relacionados a filmes sobre o holocausto nazista. Cenas excelentemente fotografadas de amplas instalações industriais em ruínas, campos gramados onde antes existia uma cidade inteira, trilhos de trem, vidros, transparências e chuvas que remetem às lágrimas acabam traçando um pungente panorama da destruição bélica. A chegada ao Brasil, simbolizada pelo rastro de um navio ao som de uma espécie de inventário afetivo de tudo o que foi deixado para trás, reveste-se de uma fortíssima poética narrativa digna de nota.

De produção britânica, “Árvores Vermelhas” tem sua marcante direção de fotografia assinada pelo uruguaio César Charlone (de  “Cidade de Deus”), Jonathan Clabburn e Fábio Burtin.

A estreia e em 29 de março.