“A GAIOLA DOURADA” FALA DE PRECONCEITOS, EM RITMO DE COMÉDIA ROMÂNTICA.

Pelo menos aqui no mercado brasileiro, estamos acostumados a receber o cinema português como uma forte vertente artística, fonte de grandes obras de marcante recepção da crítica, e que passam ao largo do público comercial. Assim, é no mínimo diferente a chegada aos nossos cinemas de “A Gaiola Dourada”, drama romântico com toques cômicos que flerta abertamente com o grande público, e que não esconde seus toques novelescos em busca de resultados comerciais.

Coproduzido por Portugal e França, “A Gaiola Dourada” fala de um casal de imigrantes portugueses que mora em Paris há 30 anos. José (Joaquim de Almeida) é mestre de obras, e a esposa Maria (Rita Blanco, ótima) é zeladora de um charmoso edifício parisiense. Seus filhos – Paula e Pedro – já são franceses.
O casal parece bem adaptado à vida na capital francesa, quando uma novidade vem lhes tirar o aparente sossego: uma polpuda herança os espera em Portugal, mas para tomar posse dela é obrigatório que eles voltem a viver na “terrinha”. A dúvida bate forte: nem eles mesmos se davam conta da quantidade de pessoas que passaram a depender do simpático casal, nestas três décadas de vida parisiense.

Mesmo lançando mão de recursos de roteiro não exatamente muito criativos (a filha pobre que se apaixona pelo rapaz rico, o garoto que mente para ser popular na escola, o empresário que esconde estar falido, e assim por diante), “A Gaiola Dourada” é eficiente ao abordar o sensível tema do preconceito contra os imigrantes. Não apenas do sempre empedernido francês contra o sempre empobrecido português, como também do próprio português agora contra os romenos, que emergem desta Europa decadente para tirar os empregos daqueles que já estavam em crise há décadas.
O filme é feliz também ao radiografar a melancólica alma portuguesa – principalmente através da personagem Maria – que se vê quase como uma traidora ao ser tentada a aceitar a herança. Portadora de uma imensa culpa católica que quer lhe impedir de ser feliz, Maria não se sente merecedora de uma vida fora da servidão à qual se submeteu como zeladora.
Numa cena-chave do filme, um triste fado amarra todas estas questões familiares.

Os melhores momentos cômicos ficam por conta da personagem Solange, uma francesa que solta os maiores disparates ao tentar se passar por conhecedora da cultura portuguesa.

Algumas interpretações caricatas e alguns vícios novelescos (ouvir atrás da porta, esconder o “segredo” da trama numa pilha de revistas que qualquer um pode ver, etc) tiram um pouco o brilho do filme, mas não o suficiente para recomendar “A Gaiola Dourada” com um simpático entretenimento que, se não é genial, é eficiente naquilo que se propõe.

Vencedor do Prêmio do Público no European Film Awards, “A Gaiola Dourada” marca a estreia do ator Ruben Alves (que faz uma pequena participação no papel de Miguel) na direção de longas.

Confira o making of: