“ALICE E O PREFEITO”, A DIFÍCIL ARTE DE PENSAR.

Por Celso Sabadin.

Fui acometido de uma brutal crise de inveja ao assistir ao ótimo “Alice e o Prefeito”, que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 27/05. Imaginem só que o elaborado roteiro de Nicolas Pariser, também diretor do filme, desenvolve nesta história a ideia que o prefeito de Lyon, o fictício Paul Théraneau (Fabrice Luchini), contrata a tal Alice do título (Anaïs Demoustier), uma profissional da área de letras e filosofia, para exercer na prefeitura uma função absolutamente impensável na nossa política brasileira atual: pensar.

Como o prefeito está passando por uma crise de cansaço mental, ele precisa desta assessora especial para o desenvolvimento de ideias. E não está se falando de projetos, planejamentos técnicos ou coisas assim, mas sim de ideias na mais ampla concepção da palavra. A função de Alice, então, é pensar a prefeitura e a sociedade de modo a municiar o prefeito a servir a população de Lyon da melhor forma possível. O que inclui desde amplas discussões sobre Schopenhauer, Shakespeare, neoliberalismo, socialismo e política da escassez até picuinhas sobre quem vai ficar com a sala maior dentro da prefeitura.

Tudo dentro da típica tradição extremamente verbal do cinema francês, o que certamente poderá assustar uma parte do público menos acostumada a – digamos – pensar. Ao final do filme, vem a vontade de reler seus preciosos diálogos, que fluem em velocidade estonteante através de seus personagens magnificamente interpretados.
Um show de boas ideias e ideais!