BELO DRAMA DE GUERRA “A VOZ ADORMECIDA” É PERFEITO PARA CHORAR.
Certa vez, visitando o gigantesco memorial que o ditador Francisco Franco mandou construir para ele mesmo (aliás, o Sarney também já mandou fazer um em São Luís, mas isso é outra história), um guia turístico me falou que não há família espanhola que não tenha sofrido pelo menos uma perda, durante a Guerra Civil. Isto nunca me saiu da cabeça. Se uma guerra entre países diferentes já é um absurdo, quanto mais uma guerra onde irmão mata irmão, vizinho mata vizinho.
Não pude deixar de lembrar disto ao ver o belíssimo (e tristíssimo) “A Voz Adormecida’. A partir do romance homônimo de Dulce Chacón, o diretor Benito Zambrano passou para as telas exatamente este sentimento: a dor de uma guerra entre iguais, a brutalidade de um conflito que, muito mais que explodir pontes e fortalezas, implode famílias, com consequências que perdurarão por várias gerações.
A trama mostra a guerrilheira Hortensia (a bela Inma Costa), prisioneira, grávida, precisando trocar mensagens com seu marido, que está foragido nas montanhas. Sua única esperança é fazer com que sua irmã nova, Pepita (Maria León, ótima), faça as vezes de pombo correio. Porém, Pepita, além de apavorada com toda a situação, é completamente alienada da política, e sem nenhuma experiência em assuntos de guerrilha e resistência. Uma jovem comum, igual a tantas outras, que terá sua vida transformada pelos horrores da Guerra Civil Espanhola. As duas irmãs, a princípio diametralmente opostas em termos de consciência política, se unem ainda mais através dos fortes laços familiares e emocionais que mantém desde pequenas.
Nem é preciso dizer que, unindo as tristezas da guerra com os valores familiares, “A Voz Adormecida” é um filme feito sob encomenda para chorar. Objetivo que, pelo menos no meu caso, foi completamente atingido. O diretor Zambrano não esconde suas intenções dramáticas, e é fortemente hábil na manipulação da sua dramaturgia. Utiliza uma fotografia em tons tristemente azulados e cinzas, e extrai interpretações perfeitas de todo o seu elenco. Não cai no sentimentalismo frouxo, e cria um perturbador painel daquele trágico momento vivido pela Espanha. E mesmo tratando de tema tão depressivo, consegue imprimir em seus filmes bons momentos de romantismo e até de humor.
De narrativa clássica e linear, “A Voz Adormecida” recebeu 3 prêmios Goya em 2012: atriz revelação (María León,neste que é apenas seu segundo filme para cinema), atriz coadjuvante (Ana Wagener, no papel de Mercedes) e canção original (“Nana de la Hierbabuena”, a canção com a qual as irmãs se comunicam nos dias de visita no presídio).
Leve o lenço e bom filme!

