“CINQUENTA TONS DE CINZA” COMEÇA MAL. MAS DEPOIS PIORA MUITO.

Por Celso Sabadin.

Muitas vezes, de onde não se espera nada é que acaba não saindo nada mesmo. A tese foi novamente comprovada com o filme “Cinquenta Tons de Cinza”, baseado no livro homônimo, de enorme sucesso comercial, mas do qual realmente seria difícil fazer um bom filme, em função de sua total superficialidade.

Para quem esteve fora do planeta Terra e não conhece a história, trata-se do complicado relacionamento entre o jovem bilionário Christian Grey (Jamie Dornan) e a estudante Anastasia Steele (Dakota Johnson). Ele, perturbado, tem uma espécie de síndrome de mandão, e é adepto do sadomasoquismo. Ela, sonhadora, quer um namoro normal, com flores, bombons, jantares e cinema.  A profunda dicotomia entre os personagens poderia gerar uma série interminável de temas e subtemas a serem explorados, estudados, comentados ou, no mínimo, tangenciados. Poderia. O filme opta por não aproveitar nenhuma das oportunidades. Pelo contrário: tudo é muito asséptico, frio, distante, e se o livro foi festejado como uma espécie de afrodisíaco, o filme certamente é um excelente sonífero.

Um dos principais problemas de “Cinquenta Tons de Cinza” começa logo na escalação do irlandês Jamie Dorman num dos papeis principais. O rapaz consegue não passar nada: nem ódio, nem raiva, nem sedução, nem atração, nem charme, muito menos carisma. Seria injusto chamá-lo de poste, pois pelo menos de um poste pode se esperar alguma luz. Já Dakota Johnson se sai bem melhor, sugere mais credibilidade e realismo, mas é difícil contracenar com ninguém.

O filme é completamente sem ritmo, monocórdio, enfadonho, e consegue falhar feio no único ponto que fez o sucesso do livro: as cenas de sexo. Provavelmente preocupada em atingir um público mais numeroso, a diretora inglesa Sam Taylor-Johnson (de “O Garoto de Liverpool”)  optou por um erotismo suavizado, pasteurizado, amenizando o que deveria ser  “hard” e fazendo tudo parecer um grande comercial de perfume.

Na verdade o grande desastre que se transformou “Cinquenta Tons de Cinza” deve-se à histórica incapacidade do cinema comercial norte-americano em lidar com temas relacionados ao sexo. Naquela sociedade conservadora e puritana, o tema continua sendo um tabu, um monstro a ser enfrentado, um bicho de sete cabeças já há décadas domado por outras cinematografias, como a europeia e a brasileira, por exemplo. Mesmo sendo a diretora inglesa, vale lembrar que a produção é estadunidense, e muito dificilmente aquele país consegue conciliar a necessidade de se fazer um filme comercial com a desejável profundidade e/ou qualidade de filmes de temática sexual.

Dificilmente mercado, arte e conteúdo caminham juntos, e “Cinquenta Tons de Cinza”, com seus intermináveis 125 minutos de nada, provam isso mais uma vez.