“CÍRCULO DE FOGO”: GODZILLA É PARA OS FRACOS.

Mundo globalizado é assim mesmo: dinheiro americano e diretor mexicano se unem para produzir um filme de temática eminentemente japonesa. E nasce “Círculo de Fogo” (não confundir com o belíssimo drama de guerra homônimo de 2001), superprodução que eleva à máxima potência dos efeitos especiais (pelo menos até o momento) os velhos filmes e seriados de monstros japoneses.

Godzilla é para os fracos. Além de contar com mais, maiores e mais poderosos monstros vindos do mar, “Círculo de Fogo” também cria uma profusão de robôs metálicos construídos pela mão humana. São os “Jaeger”, palavra alemã que significa “caçador”, invenção do homem para combater “Kaiju” (“monstro” em japonês), bestas gigantescas que estão escapando por uma fenda tectônica no fundo do mar para arrasar a civilização.

Bobagem? Talvez, não fosse a visão sempre especial de Del Toro (o mesmo de “O Labirinto do Fauno”), um cineasta que sabe dar aos seus filmes contornos geralmente mais refinados que os dos blockbusters tradicionais.
Há no filme mais a ser visto que uma mera luta de lagartões contra robozões. Por exemplo, a total ineficiência dos governantes do futuro ao construir um risível muro físico de aço e concreto para impedir o avanço dos “kaiju” soa como uma referência à obtusidade de Ariel Sharon, ao ordenar a construção do vergonhoso muro que separa judeus e palestinos nos territórios de ocupação. Isso sem falar na leitura mais óbvia do muro edificado na fronteira entre Estados Unidos e México, este, por sinal, país natal do diretor. Todos eles são muros facilmente derrubáveis – física ou simbolicamente – erguidos por governantes idiotizados.
Há também uma interessante crítica social ao sugerir que as cidades mais próximas dos mares – e, consequentemente mais sujeitas à fúria dos monstros – tenham permanecido habitadas pelas populações mais pobres, enquanto os ricos e politicamente favorecidos tivessem encontrado mais facilidade em fugir para regiões mais altas, durante os anos de guerra. O próprio personagem de Rol Perlman perdeu um olho ao tentar se proteger num “abrigo público”. Do SUS, talvez? O mesmo personagem, por sinal, enriqueceu com o tráfico propiciado e incentivado por ninguém menos que os próprios construtores de robôs, os heróis do filme.
Vale destacar também o flashback de Mako, ainda garotinha, correndo apavorada e solitária pela sua Tóquio destruída. Uma imagem (para mim, a melhor do filme) que remete diretamente às atrocidades das bombas atômicas da Segunda Guerra ou, mais explicitamente, à histórica foto da menina vietnamita fugindo do napalm norte-americano.
Mas talvez não devêssemos nos apegar tanto a estas memórias icônicas, pois, segundo o próprio roteiro de “Círculo de Fogo”, o apego excessivo às lembranças do passado impedem os nossos atos no presente.

Outra opção interessante do filme foi abrir mão de mega astros e estrelas no elenco, fazendo assim que todos os holofotes recaíssem sobre os verdadeiros “protagonistas” da ação: os monstros e os robôs. Afinal, Charlie Hunnam (da série de TV “Sons of Anarchy”), Idris Elba (coadjuvante em “Thor”), Rinko Kikuchi (ótima em “Babel”), Charlie Day (“Quero Matar meu Chefe”), Rob Kazinsky, Max Martini, Clifton Collins, Jr. e Burn Gorman não são nomes fortes o suficiente para sobrepujar kaijuns e jaegers. Mas talvez não sejam também nomes fortes o suficiente para mobilizar as plateias americanas, que deixaram nas bilheterias do país apenas US$ 64 milhões nas duas primeiras semanas de exibição, quantia que vai sinalizando para um fracasso financeiro de “Círculo de Fogo”.

Questões financeiras a parte, terminada a projeção do filme, fora a exaustão visual e auditiva proporcionada pela overdose de efeitos, duas fortes sensações permanecem. A primeira é a expectativa por “Pinocchio”, que Del Toro está préproduzindo, ainda sem data marcada para estreia. E a segunda é a grande dúvida: por que, afinal, o título brasileiro é “Círculo de Fogo?”.