CLÁSSICO “O DINHEIRO”, DE 1928, CADA VEZ MAIS ATUAL.

Por Celso Sabadin.

Em tempos de escândalos financeiros com grandes bancos (e quais não são?), a dica é conhecer (ou rever) o épico urbano “O Dinheiro”, um dos grandes representantes do Impressionismo Francês, movimento do qual também destacamos “Febre”, outro dia, por aqui.

Realizado em 1928, “O Dinheiro” se inicia um pouco truncado, tentando apresentar ao público o funcionamento da especulação financeira predadora que servirá de base para a trama. Aos poucos, porém, ele assume ares mais cinematográficos, na medida em que desenvolve e revela os planos de Nicolas Saccard (Pierre Alcover), um dos banqueiros corruptos (desculpa o pleonasmo) que irá se configurar no grande vilão do longa.

A manipulação da verdade e a disseminação de notícias mentirosas como forma de trocar de mãos – via bolsas de valores – grandes quantidades de dinheiro, atualmente não seria um tema dos mais inéditos. Mas saber que o filme foi lançado um ano e meio antes da grande quebra da Bolsa de Nova York – ocorrida em outubro de 1929 – lhe confere um caráter, no mínimo, premonitório.

E mais: o roteiro foi baseado em texto publicado por Émile Zola em 1891. Houve inclusive, na época da produção do filme, uma série de manifestações nos meios intelectuais contra a “heresia” de se adaptar um texto clássico de Zola para a época contemporânea.

Cinematograficamente, “O Dinheiro” é uma verdadeira joia não apenas do Impressionismo Francês, como de toda a História do Cinema. Aliás, qualidade que é marca registrada do sempre superlativo diretor Marcel L’Herbier: cenários gigantescos, milhares de figurantes, figurinos luxuosos, enquadramentos e movimentações de câmera deslumbrantes, direção de arte e fotografia estupendos, técnica precisa e mise-en-scène genial.

Naturalmente, tudo isso custou atrasos na produção e estouros no orçamento, mas c´est la vie!

 

O DINHEIRO, mise=en=scene jogo de xadrezArdilosos, os banqueiros corruptos (opa, desculpa a redundância outra vez) estudam cuidadosamente os movimentos que farão contra seus adversários. Perceba o chão onde a cena se desenvolve: é um tabuleiro de xadrez. A população formada por pessoas comuns é totalmente impotente diante do poder dos bancos. Perceba o enquadramento que potencializa o esmagamento destes pequenos humanos na frente da fachada imponente do prédio. Assim era L´Herbier. Assim deveria ser o cinema.

 

O DINHEIRO, mise=en=scene opressao

Aliás, L´Herbier também pode ser considerado o responsável – ou pelo menos o impulsionador – da incrível carreira do brasileiro Alberto Cavalcanti. Diz a história que Cavalcanti, quando ainda estudava arquitetura, escreveu uma carta (naquela época era carta) a L´Herbier, elogiando a cenografia de seus filmes. O francês então ofereceu ao brasileiro o seu primeiro emprego no cinema, no departamento de arte.

Encontrei algumas opções gratuitas de cópias de “O Dinheiro” no YouTube.

Essa não está muito boa, as cartelas são apenas em francês (lembrando que o filme é mudo), mas traz a duração original completa, com 3h15: https://www.youtube.com/watch?v=ne_tcxgwNr0

Essa está com uma imagem ótima, restaurada, mas é a versão de 2h45, e as cartelas estão em francês, sem opção de outro idioma: https://www.youtube.com/watch?v=E8mjiFmJcxE

Essa é a minha preferida: imagens ótimas, com cartelas em francês e espanhol. Mas também é a versão de 2h45: https://m.ok.ru/video/6871728523956