DEVANEIOS AO VER “O FILME DA MINHA VIDA”.
Por Celso Sabadin.
Num primeiro momento, enquanto assistia a “O Filme da Minha Vida”, me veio à cabeça que o longa apresentava um grande mérito e um grande defeito. O grande mérito: ele é bonito demais! O grande defeito: ele é bonito demais! A sempre tocante – e bela – história clássica de um filho à procura de seu pai (ou pelo menos à procura das motivações do seu pai) vinha revestida de uma belíssima fotografia, enquadramentos e movimentos de câmera cuidadosamente estudados, trilha encantadora. Tudo tão maravilhosamente embalado que aos 15 minutos de projeção eu já me via ameaçado de ser acometido por algum tipo de diabetes cinematográfica, tamanhas as doses de açúcares e edulcorantes destilados na tela. Aos poucos o brilho das qualidades do filme (diálogos, interpretações…) ia sendo empanado por uma estética publicitária de luzes alaranjadas que buscava o mega instante inesquecível a cada momento. Cada plano montado como se fosse o único, cada entrada de música pensada como uma grande epifania.
Estava detestando tudo quando tive a minha epifania: eu estava vendo um filme que se propunha a ser “O Filme da Minha Vida”. Não um filme qualquer, pra ver na sessão da tarde qualquer ou num dia qualquer de um cinema qualquer, mas o grande filme da minha vida, aquele que a gente idealiza, que não existe, nunca vai existir, nem pode. Aquele que a gente narra na nossa cabeça da mesma forma que narrávamos os gols espetaculares no futebol de botão quando éramos garotos. Aquele que a gente filma do jeito que quer, com tudo dando certo, sem dificuldades de produção, maravilhosamente, e ainda idealiza que é o Walter Carvalho que está fazendo a fotografia (opa, e está mesmo!). Ou seja, “O Filme da Minha Vida” não dá a mínima para a verossimilhança porque ele só existe no registro do onírico. Pode não ser o filme da minha vida, mas se é o filme da vida do diretor Selton Mello e ele ficou feliz com isso, valeu.
Pessoalmente, gostei muito mais de “O Palhaço”.

