EM DVD, CLÁSSICO “CIDADE NUA” RECRIA EM NOVA YORK O REALISMO VINDO DA ITÁLIA.
Por Celso Sabadin.
No pós-Segunda Guerra, o Neo Realismo Italiano encantava o mundo. Câmera livre, leve e solta, filmagens quase documentais, em plena rua, atores e não atores se misturando em cena, uma nova proposta estética e social para o cinema ganhava corações e mentes das plateias e dos cineastas. Nos Estados Unidos não seria diferente. Encantado pelas novas ideias neorrealistas, o produtor Mark Hellinger, em parceria com a então recém-formada Universal International Pictures (braço da Universal), começou a levantar o projeto do que seria o filme “Cidade Nua”.
O encantamento de Hellinger pelo neorrealismo era coerente. Jornalista pioneiro da crítica teatral norte-americana, colunista de assuntos da Broadway, apaixonado pela vida noturna e pela boemia, Hellinger era fascinado pelas histórias do submundo novaiorquino e suas personagens da vida real. A partir do argumento de Malvin Wald, que desenvolveu o roteiro junto com Albert Maltz, e com direção de Jules Dassin (que mais tarde dirigiria “Rififi”), Hellinger produziu este que seria, por assim dizer, um filme neorrealista à moda norte-americana.
A base da trama é a investigação policial que se segue à morte de uma jovem modelo. Uma bela garota que, assim como tantas, saiu do interior para tentar a fama em Nova York. Intrigantemente, ela mal aparece no filme. Praticamente não existe. Não tem rosto. O roteiro se fixa nos seis dias da investigação de sua morte, em como foram afetadas as vidas das pessoas de seu relacionamento, e como este caso, explorado pela imprensa, teve o valor de 30 centavos: seis dias a cinco centavos cada jornal vendido. Afinal, como diz o próprio filme, há 8 milhões de casos na cidade nua. E este é apenas um deles. Um caso a ser consumido e descartado rapidamente, pois logo surgirá outro, e outro, e outro…
A banalização deste assassinato, como ele acontece numa madrugada qualquer, como ele ganha a imprensa, intensifica a vida dos policiais, e desparece do cotidiano das pessoas tão repentinamente como surge, é uma dos elementos mais geniais do filme, que antecipa a espetacularização do crime que marcará as próximas décadas.
Não é o caso investigado que importa em “Cidade Nua”. Diante das modernas técnicas de combate ao crime, insistentemente alardeadas nos mais diversos seriados policiais que inundam hoje em dia nossas televisões, a investigação que vemos em “Cidade Nua” assumirá contornos dos mais ingênuos e rudimentares, típicos de uma época em que a informação policial era recolhida em botecos barra pesada, e a lista de suspeitos e suas conexões mal ocupavam o espaço de uma pequena lousa colocada na delegacia. A grande estrela aqui é Nova York e a forma como ela mostrada: com poucos retoques.
Naqueles distantes anos 40, não era comum uma equipe de filmagens ocupar a cidade mais midiática do planeta, fechar ruas, colocar luzes e câmeras nas calçadas. Até aquele momento, a regra hollywoodiana era recriar cenários novaiorquinos em estudos californianos, onde todas as variáveis pudessem ser milimetricamente controladas. “Cidade Nua” vem para quebrar esta escrita. Além das filmagens feitas em meio ao público, houve também tomadas rodadas sem o conhecimento da população, e a utilização de câmeras ocultas que captavam as expressões das multidões em situações previamente preparadas pela produção. Nada menos que 10 diferentes pontos da cidade foram utilizados como locação nos pouco mais de 90 minutos de filme. Como resultado, se vê e se sente uma Nova York pulsante e realista na tela do cinema. Não tão realista, vale dizer, que os neorrealistas italianos. Afinal, a estetização e a ficcionalização estão fortemente arraigadas ao DNA do cinema estadunidense, sempre muito mais apegado à maquiagem que à verdade, mas mesmo assim real o suficiente para sacudir um pouco as bases cinematográficas daquele país: “Cidade Nua” foi escolhido como “o drama americano melhor escrito do ano”, pela associação dos roteiristas dos EUA, além de ganhar, pela mesma associação, o Prêmio Robert Meltzer, conferido ao “roteiro que lida mais habilmente com os problemas americanos”. Foi indicado também a melhor filme no Bafta, e ganhou dois Oscar: Fotografia em Preto e Branco e Montagem. Recebeu ainda indicação à estatueta de Roteiro Original, mas a Academia preferiu “Perdidos na Tormenta”.
“Cidade Nua” estreou, claro, em Nova York, em 3 de março de 1948, e ironicamente acabou sendo o último trabalho de Mark Hellinger, fulminado por um ataque cardíaco pouco após as filmagens, em dezembro do ano anterior. Hellinger, cuja voz se ouve narrando o filme, acabou ele próprio sendo uma das 8 milhões de histórias da cidade nua. Seu legado, porém, permaneceu: dez anos depois, com o mesmo mote das 8 milhões de histórias, “Cidade Nua” foi transformado em série de televisão, com 139 episódios produzidos pela Screen Gems entre 1958 e 63, e exibida com muito sucesso em todo o mundo, inclusive no Brasil.
O DVD agora lançado faz parte da caixa “Filme Noir 5”, da Versátil Home Video.

