EM DVD, “O RELUTANTE FUNDAMENTALISTA” DISCUTE DIVISÕES HUMANAS E POLÍTICAS.
Em nome do todo-poderoso “mercado” (que, no fundo, ninguém sabe exatamente como funciona, mas todo mundo chuta opiniões), bons filmes são lançados diretamente em DVD, sem estrear nos cinemas, enquanto alguns sub-produtos de pouca ou nenhuma qualidade (eufemismo para “lixo”) ganham lançamento nas telas grandes.
É o caso, por exemplo, de “O Relutante Fundamentalista”, envolvente trabalho da diretora indiana Mira Nair, que certam ente merecia espaço nos cinemas, mas só está disponível nas videolocadoras. Após realizar o fraco “Um Casamento à Indiana” e a ode ao tédio chamada “Nova York, Eu Te Amo”, Nair surpreende favoravelmente, e muito, neste seu novo trabalho.
A partir do best-seller homônimo do escritor paquistanês Mohsin Amid, publicado em 2007, o “O Relutante Fundamentalista” conta a história de Changez Khan (o inglês Riz Ahmed, de “O Príncipe do Deserto”), um jovem paquistanês que vai tentar a vida em Nova York, como analista financeiro. Ele seria apenas mais um dos milhões de imigrantes estrangeiros vivendo nos Estados Unidos, não fosse o fatídico 11 de setembro. Após os históricos atentados, o rapaz passa a sentir violentamente todo o preconceito que se volta contra ele, pelo simples fato de ter feições árabes. Inteligente e perspicaz, Changez aos poucos vai transformando o ódio que recebe em reflexões humanistas e políticas. Um sequestro de cunho político o coloca perigosamente em rota de colisão com um agente da CIA (Liev Schreiber).
Questões de identidade cultural, racismo e preconceito são colocadas no filme de maneira adulta e livre de maniqueísmos. Há ótimos duelos sob a forma de diálogos entre os personagens principais. O roteiro é feliz ao retratar o protagonista como um homem, sob os mais diversos pontos de vista, dividido. Dividido entre países, culturas, ideias e até no amor, quando passa a namorar a norte-americana Erica (Kate Hudson, bem distante da beleza que vimos em “Quase Famosos”). O processo de amadurecimento de Changez é retratado com solidez, e a direção dosa com qualidade momentos de drama, romance e thirller político.
Digna de nota e bastante feliz a comparação feita entre as questões imigratórias atuais e os Janizaros, antigos exércitos constituído de crianças cristãs raptadas pelos otomanos e convertidas ao islamismo para mais tarde combaterem suas próprias famílias.
É como se a Humanidade jamais mudasse, mas apenas se reinterpretasse incessantemente a cada época, repetindo incansavelmente – e sem resultado – que todo o tipo de fundamentalismo é causador de tragédias irreparáveis.
Louve-se ainda a decisão da distribuidora em legendar para o português as letras das canções árabes que compõem a trilha sonora do filme. Elas não estão ali por simples questões de estética musical, mas também pelos seus conteúdos.

