ENTRE O CLÁSSICO E O CONTEMPORÂNEO, “WEST SIDE STORY” RENASCE VIBRANTE.
Por Celso Sabadin.
Desde que fiquei sabendo que Steven Spielberg iria refilmar “West Side Story” (no Brasil, “Amor Sublime Amor”), achei a ideia, como dizia nosso querido Rubens Ewald Filho, “uma bobagem!”. De uma maneira, geral, acredito que refilmar clássicos nada mais é que um caça-níqueis.
Quando vi o primeiro trailer pronto, minhas suspeitas foram reforçadas: pra quê refazer um clássico mantendo o mesmo estilo? Poderia, pelo menos, mudar o jeitão, o enfoque. Quem, hoje em dia, vai se interessar por este tipo de musical antigo em que as pessoas saem dançando e cantando na rua, ensandecidas? Logo lembrei do infeliz remake que Gus Van Sant fez de “Psicose” e acreditei que Spielberg teria um fracasso nas mãos.
Quando o West Side Story spielberguiano foi lançado, não tive pressa em ver. Fui assisti-lo sem entusiasmo, mais como uma obrigação profissional. E quebrei a cara espetacularmente: o filme é uma maravilha! Aos 75 anos de idade, Steven Spielberg lança mão de uma produção da Broadway da metade do século passado, adaptada para o cinema há 60 anos, mantém a estrutura de “musical antigo em que todo mundo sai na rua cantando e dançando desesperadamente”… e consegue fazer desta viagem retrô um espetáculo contemporâneo. Como? Não sei se eu sei como, mas tenho algumas teorias.
Acredito que, em primeiro lugar, o tema – infelizmente – está mais atual do que nunca. O discurso de ódio retratado localmente na trama através de norte-americanos brancos e portorriquenhos espalhou-se exponencialmente pelo planeta nos últimos 50 anos, não só atualizando como potencializando o assunto.
Chama a atenção também a extrema habilidade cinematográfica de Spielberg em atualizar o filme sem subverter sua estrutura, digamos, antiga. Uma coragem dupla do cineasta: a primeira, de ousar refilmar um clássico consagrado e se expor às inevitáveis comparações; e a segunda de colocar nas telas do século 21 a formulação dos velhos musicais, de difícil aceitação pelas plateias atuais.
Neste difícil tempero agridoce que une o antigo e o contemporâneo, o filme opta por reduzir – um pouco – os gestuais superlativos das coreografias e a teatralidade das intepretações que marcaram a primeira versão, ao mesmo tempo em que intensifica – bastante – as possibilidades imagéticas e cinematográficas que Spielberg domina como poucos. Números musicais que – na primeira versão – ficam restritos a um único espaço/cenário, agora ganham as ruas (cenografadas, claro) com mais intensidade e vibração, tudo magistralmente captado no “bom e velho” 35 milímetros.
O resultado é uma ponte passado-presente vigorosa e altamente emotiva estruturada pela vibrante música de Leonard Bernstein, com letras de Stephen Sondheim, em canções que – pelo menos para mim e para meus contemporâneos – vêm carregadas de uma poderosa memória afetiva. Cresci ouvindo “Maria”, “Tonight” e “América”, entre outras, mesmo sem, na época, ter visto o filme.
Um dos poucos filmes da história do cinema em que posso falar, sem medo de errar, que a refilmagem superou a versão original.

