“ERA UMA VEZ UMA LUA-DE-MEL”, PROVOCANDO HITLER.
Por Celso Sabadin
Antes que me perguntem, não sei se “Era uma Vez uma Lua-de-Mel” está disponível em alguma plataforma legal de filmes. Da mesma forma que eu não sei até que ponto pode-se dizer usar o adjetivo “legal” para plataformas que insistem em cobrar do já combalido consumidor filmes de quase 100 anos atrás. Mas isso já é outra história.
De qualquer maneira, o que me levou a ver “Era uma Vez uma Lua-de-Mel” – que eu desconhecia – foi o livro “O Pacto entre Hollywood e o Nazismo”, de Ben Urwand, que o coloca entre os que mais irritaram o governo nazista de Hitler.
Coisas que irritam o nazismo me interessam.
Na verdade, como filme em si, “Era uma Vez uma Lua-de-Mel” é uma comédia romântica de ritmo hesitante lançada em 1942 e ambientada entre 1938 e 1940. O roteiro de Sheridan Gibney fala de Kathie (Ginger Rogers), uma ex-corista off-Broadway que vê no casamento com um poderoso barão austríaco (o realmente austríaco Walter Slezak) a possibilidade de entrar em um mundo de luxo e riqueza. Porém, o jornalista Patrick (Cary Grant), desconfia que o tal barão é um conspirador nazista, e vai investigar a história. Nem precisa dizer que ele se apaixonará por Kathie, o que não é exatamente o grande atrativo do filme.
Há, porém, um subtexto político/histórico na comédia que é muito mais interessante que o romance entre os protagonistas. O filme retrata o personagem do Baron Franz Von Luber como um articulador do nazismo cuja função é desestabilizar os governos dos países que Hitler pretende atacar e anexar. Em seu percurso de horror, ele propicia e negocia previamente (em termos que não ficam definidos) a corrosão interna das nações a serem atacadas, de maneira que, quando a Alemanha as invade, ela o faz com total facilidade, posto que seus supostos líderes já foram devidamente cooptados. Há inclusive uma cena em que Patrick caracteriza o barão como um “cupim”.
Tal figura do articulador político enfraquece aquela velha tese que a gente vê na escola – ou em livros mais superficiais – pela qual Hitler atacaria seus inimigos “de surpresa”, subjugando-os em tempos recordes numa estratégia que foi batizada como “blitzkrieg”, a guerra-relâmpago. Assim, no filme, caem sucessivamente Áustria, Tchecoslováquia, Polônia, Noruega e Dinamarca, todas previamente visitadas pelo Barão, ainda em tempos de paz. Uma visão intrigante e provavelmente pouco explorada pela História.
“Era uma Vez uma Lua-de-Mel” se notabilizou também pelo fato de ser um dos raros em sua época em explicitar o judeu como povo perseguido pelo nazismo (na figura da camareira do hotel e seus dois filhos em fuga), já que naquele instante da produção cinematográfica estadunidense os grandes estúdios evitavam tocar na questão, para não “piorar” ainda mais a situação dos judeus (como se isso fosse possível) e, claro, para não perder o mercado alemão.
Assim, mais por questões históricas e políticas que propriamente cinematográficas, “Era uma Vez uma Lua-de-Mel” – produzido pela RKO e dirigido por Leo McCarey – merece uma revisão. Só não me perguntem onde, repito.

