“FEBRE” CINEMATOGRÁFICA.

Por Celso Sabadin.

As novas técnicas digitais, cada vez mais acessíveis, de restauração de imagens têm proporcionado ótimas surpresas aos cinéfilos. Encontrei no YouTube, gratuito, uma excelente cópia do clássico “Febre”, realizado por Louis Delluc em 1921, filme considerado um dos maiores e melhores representantes do Impressionismo Francês. Nunca o havia visto com esta qualidade, até então.

Antes de mais nada, vale uma contextualização: o Impressionismo Francês foi um movimento cinematográfico empreendido por jovens intelectuais (franceses, claro) que aconteceu entre os meados dos anos 1910 e o início dos 30. A proposta era tratar o cinema como uma arte diferenciada das demais, tentando dissociá-lo das linguagens literária e teatral. A ideia era eliminar ao máximo as cartelas de textos (ainda era a fase silenciosa) e buscar transmitir as mensagens e os sentimentos da obra através da força de suas imagens, valorizando enquadramentos, composições de planos, iluminação, sobreposições, etc. Ou seja, algo que os filmes feitos para o streaming não conseguiram fazer até hoje (e, pelo visto, nem querem).

Em apenas quarenta e poucos minutos, “Febre” mostra uma trágica história de amor desenvolvida num bar de marinheiros, no porto de Marselha. É fascinante apreciar como Delluc trabalha a profundidade de campo, posicionando seus vários personagens – realizando diferentes ações – em dois, três ou até quatro planos, do mais próximo ao mais distante da câmera, em muitas oportunidades com mínimas alterações de quadro. É como se observássemos várias pequenas subtramas acontecendo diante dos nossos olhos, espiando por uma única janela. Talvez por quase tudo ter lugar em um único espaço cênico, “Febre” me lembrou o fantástico “O Baile”, que Ettore Scola realizaria 60 anos depois.

Em “Febre, nota-se claramente como o cinema estava de fato acertando os passos do seu caminho próprio e diferenciado das demais expressões artísticas. Uma evolução que seria interrompida muito em breve, com a chegada do filme falado, que atrasou em décadas o desenvolvimento da linguagem visual da então chamada Sétima Arte.

Duas curiosidades: o ator que interpreta o personagem identificado como “Homem de chapéu cinza” é George Foottit, famoso palhaço de circo, cuja vida e carreira foram retratados no filme “Chocolate”, de 2016. Foottit faleceu em 1921, pouco depois do lançamento de “Febre”.

E deve-se também ao Impressionismo Francês a revelação do talento do brasileiro Alberto Cavalcanti, que se iniciou no cinema como cenógrafo de Marcel L’Herbier, um dos grandes representantes do movimento.

A cópia original francesa com legendas em inglês está em  www.youtube.com/watch?v=qdeo7Q_CO3Q