FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, UM FORREST GUMP BRASILEIRO.

Por Celso Sabadin.

Enquanto foi Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso sempre me passou uma imagem de superficialidade e fraqueza. Lembro-me, na época, que muito me chamava a atenção, em suas entrevistas e depoimentos, a maneira como ele se esquivava das perguntas, repetindo seu mantra: “Isso não é atribuição de Presidente da República”. Para FHC, a culpa era sempre dos outros, e suas “atribuições” seriam poucas.

Agora, vendo o documentário “O Presidente Improvável”, compreendo melhor os motivos desta minha percepção. Como o próprio título do documentário já diz, FHC assumiu a presidência do Brasil de uma forma “improvável”, nunca desejou de fato o cargo (“Eu queria ser Papa”, diz ele no filme), mal entendia das coisas da política, e foi praticamente arrastado à cadeira de presidente pelas circunstâncias, pelos líderes do MDB (e depois PSDB) e pela sua ascendência de elite. Era necessário um nome jovem e sintonizado com a intelectualidade para contrabalançar a imagem idosa das lideranças comandadas por Ulysses Guimarães, além de tentar competir com a identificação que o PT sempre teve com a mesma intelectualidade.

No filme, FHC confessa que se exilou no Chile praticamente por modismo (“todo mundo se exilava em Santiago”, diz) e que não sabe os motivos pelos quais, naquele momento,  foi rotulado de esquerdista, o que ele afirma jamais ter sido. Classifica este capítulo de sua vida como “o doce caviar do exílio”, posto que foi à capital chilena já com emprego e moradia garantidos, tudo dentro da maior tranquilidade.

De forma até ingênua, conta também que estava no Rio de Janeiro, bem ao lado da estação Central do Brasil, e presenciou de perto o histórico comício do então Presidente João Goulart, que culminaria com o golpe de 1964. E que não tinha a menor ideia do que significava tudo aquilo. Impossível não lembrar de Forrest Gump.

O longa é um simpático e bem ritmado registro de conversas de FHC com vários de seus colegas, amigos, simpatizantes e antigos colaboradores. Ele recebe em sua Fundação – presencial ou virtualmente – nomes como Bill Clinton, Manuel Castells, Ricardo Lagos, Pedro Malan, Raul Jungmann, Maria Hermínia Tavares, Boris Fausto, Alain Touraine, Gilberto Gil… Gilberto Gil? O que faz Gilberto Gil na sala de estar de FHC? Num primeiro momento é difícil dizer, mas até o final do filme ficamos sabendo que Gil – nome diretamente associado ao governo Lula – chegou a participar de uma das ações sociais de Ruth Cardoso, a falecida esposa de FHC. Mas me parece bastante claro que a presença de Gil no filme foi apenas para tentar dar um ar “politicamente correto” ao longa, já que toda a roda de influências de FHC é composta somente por brancos, e contemporaneamente não seria “de bom tom” não contemplar uma figura negra. Ou, trocando em miúdos, Gil entrou no filme pelo sistema de cotas.

Um farto e histórico material de arquivo enriquece o documentário.

Após cerca de 100 minutos de bate-papos, vejo ratificada minha posição inicial de Fernando Henrique ser superficial e vazio. Não permanece de pé sequer uma boa ideia, posições, pensamentos interessantes, ou qualquer profundidade política. É um bate papo descontraído com um vovozinho sorridente que acabou sendo Presidente da República e vendeu barato uma parte do país através de sua política de privatizações.

Muito feliz o nome do filme – O Presidente Improvável. É o que mereceu este nosso país improvável.

O roteiro é de Lyana Peck (também responsável pela ótima montagem) e de Belisario Franca, também o diretor do longa. Franca começou sua trajetória como diretor na Rede Globo, onde assinou a série Brasil Legal. Há 25 anos, fundou a Giros Filmes, onde passou a dirigir seus projetos autorais – os premiados Menino 23, Amazônia Eterna, Música do Brasil e Além Mar, bem como os dramas Jungle Pilot (Universal TV), Revolta dos Malês (SescTV) e Baile de Máscaras (TV Cultura).

A estreia nos cinemas é em 31 de março.