“GAUGIN – VIAGEM AO TAITI”, A BUSCA PELO DESCONFORTO QUE MOVE A CRIAÇÃO.

Por Celso Sabadin.

Até a semana passada, Paul Gaugin, pra mim, era Donald Sutherland. Agora é Vincent Cassel. É dele a magistral interpretação  do famoso pintor francês no novo filme de Edouard Deluc. “Gaugin – Viagem ao Taiti” não se propõe a ser uma cinebiografia completa do artista, preferindo se concentrar na segunda viagem que Gaugin empreende ao Taiti, em 1891.

Longe de ser datada, a questão central do filme é sempre atual: os limites que devem ser superados e os sacrifícios que devem ser empreendidos para que um artista finalmente se encontre com a sua arte. Uma arte verdadeira e significativa, e não apenas um mero produto a ser comercializado numa galeria qualquer, para enfeitar uma parede qualquer. Alegando que “em Paris não existe mais nenhum rosto ou paisagem que mereça ser pintado”, Gaugin abandona a mesmice da cidade grande e segue rumo ao Taiti, em busca de novas sensações e novas cores. Como não poderia deixar de ser, a utopia do paraíso tropical não é exatamente o que o artista imaginava. Mas não importa. Importa sim que o verdadeiro criador percebe que é impossível criar quando se está na zona de conforto. Que para a vida acontecer em toda a sua plenitude é necessário correr riscos, romper barreiras, desfiar convenções, quebrar paradigmas. E isso não vale apenas para artistas e pintores.

Uma subtrama dentro do filme se mostra das mais interessantes e significativas, principalmente para o mundo mercantilista de hoje: Gaugin ensina um taitiano a esculpir pequenos totens. O rapaz começa a produzir as peças em série, umas idênticas às outras. Gaugin se enfurece e diz que não foi para isso que ele lhe ensinara arte. Adivinha quem fica rico no fim do filme? (Até o fechamento desta matéria não há informações se Romero Brito processou ou não o roteirista por calúnia).

Intenso e vigoroso “Gaugin – Viagem ao Taiti” ainda traz uma fotografia de encher os olhos e locações reais no Taiti. Um verdadeiro oásis cinematográfico neste mundo digital.