GRAMADO 2017: NOITE DIFÍCIL NA MOSTRA COMPETITIVA.

Celso Sabadin, de Gramado.

Não foi nada fácil passar pela quarta noite da Mostra Competitiva do 45º Festival de Cinema de Gramado, nesta terça-feira. Não tanto pela temática dos dois longas exibidos – ditadura e morte, respectivamente – mas principalmente pela falta de fluência dos filmes.

O argentino “Sinfonía para Ana”, de Virna Molina e Ernesto Ardito, o primeiro a ser exibido, parece ter muito mais que os seus 119 minutos de projeção. O que é uma pena, pois a história é ótima, a intenção é excelente, mas cinematograficamente o filme esbarra numa desconfortável estética telenovelesca.

Tudo acontece nos meses que antecedem o golpe militar argentino de 1976, e enfoca a história de amor de dois adolescentes que se envolvem durante a ocupação estudantil do tradicional Colégio Nacional de Buenos Aires. A proposta de abordar a tomada de consciência política dos jovens, ao mesmo tempo em que eles descobrem suas sexualidades em meio ao caos de uma Argentina que desmorona, poderia ter rendido uma grande obra. Contudo, a utilização excessiva de planos muito fechados (provavelmente para conter custos de reconstituição de época) se revela claustrofóbica em demasia. Assim como demasiadas são as intervenções desnecessárias da locução em off e principalmente a trilha sonora insistente, pouco inspirada, e igualmente telenovelesca.

O codiretor Ernesto Ardito afirmou ter feito o filme para o público jovem, que em sua maioria desconhece a verdade dos tristes acontecimentos daquela época. Uma intenção das mais louváveis.

Já o longa brasileiro “A Fera na Selva”, escrito, dirigido e interpretado por Paulo Betti e Eliane Giardini, vaio revestido de um grande estranhamento.

Baseado na obra de Henry James, o filme conta a história de João (Betti), um professor que tem a certeza absoluta que sua vida será marcada por um grande e importantíssimo acontecimento – provavelmente trágico – que ele não faz a menor ideia qual seja. Sua amiga Maria (Giardini) aceita ficar ao lado dele para descobrir qual será, afinal, este grande fato.

O ponto de partida é atrativo, mas o desenvolvimento do filme se dá num registro incômodo, com os atores (principalmente Betti) recitando suas falas de maneira e impostação teatrais, com montagem e direção de arte primárias. Uma voz em off que permeia toda a narrativa para explicar tudo o que já está sendo visto confere a “A Fera da Selva” um certo ar de telecurso de emissora pública.

Aguardemos melhores filmes para esta quarta-feira.

 

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.