GRAMADO 2017:  ÓTIMOS DOCUMENTÁRIOS REGISTRAM ALICE GONZAGA E ANTONIO PITANGA.  

Por Celso Sabadin, de Gramado,

Dois documentários exibidos aqui em Gramado registram e resgatam duas personalidades das mais marcantes e importantes para o cinema brasileiro: “Desarquivando Alice Gonzaga” e “Pitanga”.

O primeiro, dirigido por Betse de Paula, como seu próprio título já diz, documenta Alice Gonzaga, filha do pioneiro do cinema brasileiro Adhemar Gonzaga, que foi o fundador da Cinédia Cinematográfica, o primeiro grande estúdio nacional.

Como fez questão de frisar durante a homenagem recebida na noite de ontem, Alice detesta ser chamada de “a herdeira de Adhemar Gonzaga”, como foi dito na cerimônia oficial, o que provocou o comentário ácido e bem humorado da homenageada.  A ativíssima e divertida carioca de 82 anos deixa claro que desenvolve já há décadas um trabalho de continuidade à obra do pai, lutando pela preservação do cinema brasileiro como um todo e do acervo da Cinédia em particular, mas que rejeita a classificação de mera ”herdeira”.  “Ele era ele, eu sou eu”, disse Alice ao receber seu troféu, provocando risos e aplausos na plateia.

O documentário “Desarquivando Alice”, ainda inédito no circuito comercial,  capta com precisão esta alma libertária e espontânea da documentada, que cuida diariamente de um imenso arquivo de papeis, documentos, recortes de jornais e filmes que ajudam a contar a história da Cinédia e do nosso cinema. Cinema, aliás, que Alice faz questão de chamar de “Brasileiro”, e nunca “Nacional”. “Cinema nacional é o cinema francês, o inglês… o nosso é Cinema Brasileiro”, afirmou orgulhosa.

Conversando com este repórter, Alice afirmou que deu toda a liberdade possível para Betse de Paula fazer o filme. “Eu não falei nada, não dei opinião em nada, não direcionei nada, ela fez tudo do jeito que ela quis e ficou ótimo! Bom, só pedi pra tirar uma cena que aparecia um vaso quebrado no fundo. Aí não dá, né?”, finalizou. Esta é Alice Gonzaga.

 

 

Pitanga

 

O segundo documentário, “Pitanga”, de Camila Pitanga e Beto Brant, é o registro histórico, emotivo, profissional e político da trajetória do ator Antonio Pitanga, um dos ícones do Cinema Novo, tendo estrelado tanto o primeiro como o último longa Glauber Rocha: “Barravento”, em 1961, e “A Idade da Terra”, em 78. Já exibido em circuito comercial, “Pitanga” registra os mais de 60 anos de carreira do ator, que foi dirigido por

Rogério Sganzerla, Paulo César Saraceni, Sérgio Resende, Zelito Vianna, Karim Aïnuz, Carlos Reichenbach, Hugo Carvana, Silvio Tendler e vários outros.

Ao apresentar o filme, a codiretora e filha do documentado Camila Pitanga afirmou, emocionada, que o projeto era realmente para ser um registro histórico, mas com as recentes mudanças políticas no país, ele se reveste agora de uma inesperada e triste atualidade. Lembrando que Antonio Pitanga sempre foi uma grande voz militante das esquerdas e dos movimentos pró-minorias.

Descontraído e extremamente afetivo, o documentário tem seu fio narrativo composto por encontros e bate papos de Antonio Pitanga com pessoas que tiveram importância marcante em sua vida e sua carreira. Tudo regado e cenas preciosas da história do cinema brasileiro.

 

Celso Sabadin viajou a Gramado a convite da organização do evento.