“HAVA, MARYAM, AYESHA”, TRÊS MULHERES E UM DESTINO.

Por Celso Sabadin. 

Admito que no primeiro episódio de “Hava, Maryam, Ayesha” me veio novamente aquela sensação de estar vendo “outro filme colonialista coproduzido pela França pra dizer que a cultura árabe é horrenda e atrasada”. Felizmente nos outros dois episódios esta sensação se diluiu.

Explico: no primeiro episódio vemos Hava (a estreante Arezoo Ariapoor), grávida, sendo maltratada ao extremo pelo machismo estrutural de seu marido e seu sogro. O primeiro recebe os amigos em casa e exige que a esposa faça rapidíssimo todos os preparativos. E que ela se limite a fornecer a comida pronta, sem sequer aparecer na sala. Enquanto isso, o sogro só reclama de tudo e não move uma palha para ajudar a mulher, que se submete e tudo, de cabeça baixa. Há um maniqueísmo colonialista estrutural em toda a narrativa.

O segundo episódio, felizmente, quebra o estereótipo ao mostrar Maryam (Fereshta Afshar, do iraniano “Pari”), uma jornalista que recusa um serviço humilhante proposto pelo seu chefe, ao mesmo tempo em que não se dobra à insistência do marido, que não consegue aceitar o divórcio. Enfim, um retrato mais contemporâneo da condição feminina.

E o filme se fecha com o episódio da jovem Ayesha (Hasiba Ebrahimi), que se vê às voltas com a milenar e humilhante tradição do casamento arranjado.

O que uniria, então, estas três mulheres afegãs de três condições sociais diferentes? Para saber, só vendo o filme, que é coproduzido por Afeganistão, Irã e – claro – França.

A direção é da Sahraa Karimi, estreando no longa ficcional, com roteiro dela mesma em pareceria com Sami Hasib Nabizada. “Hava, Maryam, Ayesha” foi selecionado para a Mostra Horizontes, no Festival de Veneza.