“HISTÓRIAS DE ALICE”. E DE OSWALDO CALDEIRA.
Por Celso Sabadin.
Um homem à procura do seu passado. O tema, dos mais recorrentes não só no Cinema como na própria Humanidade, ganha cores e tratamento diferenciado em “Histórias de Alice”, novo filme do diretor mineiro Oswaldo Caldeira, o mesmo de “Tiradentes” (1999), “O Grande Mentecapto” (1990), O’ Bom Burguês” (1982), e tantos outros.
Com roteiro do próprio diretor (que completará 50 anos de carreira no ano que vem), o filme começa com o cineasta brasileiro Lucas (Leonardo Medeiros, ótimo) chegando a Portugal para uma pesquisa. Ele busca levantar histórias sobre sua mãe, Alice, mas não deixa claros os seus motivos. Talvez seja para um novo filme, talvez para sua própria jornada de autoconhecimento, não importa. Com o tempo, veremos que Lucas não se importa sequer em saber se as histórias que ele ouve a respeito de Alice são reais ou não. Para ele, são muito tênues os limites entre a vida e o cinema, entre a ficção e a realidade, e o que vale mesmo numa história é que ela seja boa, não necessariamente verídica.
Em sua pesquisa, Lucas acaba encontrando Teresa (Diana Costa e Silva), uma jovem restauradora portuguesa de obras de arte, e seu namorado Miguel, um oportunista produtor de TV meio brasileiro, meio português, malandro por inteiro.
Encaixando e reencaixando o momento atual de Lucas com cenas em flash back com histórias de vida de seu protagonista, Caldeira vai montando um quebra-cabeças de onde emergerá um segredo do passado. Se o segredo é real ou imaginário, quem se importa? Como diria o próprio Lucas, Importa se ele é bom.
Não é preciso ser um grande conhecedor para perceber que “Histórias de Alice” é fortemente autobiográfico. Porém, se o próprio protagonista do filme não tem na verdade dos fatos sua maior preocupação, que dirá então sobre o ficcionista que lhe deu vida na tela. Assim, perguntei a Oswaldo Caldeira o quanto “Histórias de Alice” tem de ficção, e o quanto ele tem de verdade. “De fato, é um filme de inspiração autobiográfica – responde o cineasta – que tem como ponto de partida a gravação que quis fazer com as histórias de minha mãe e ela faleceu antes que eu pudesse realizá-las. Então, no momento seguinte fui em busca destas respostas em Portugal, onde ela e grande parte da minha família tinham vivido. Aos poucos percebemos que vamos ficando cada vez mais situados ou perdidos numa espécie de limbo que não é mais o passado nem o presente, não é o Brasil nem Portugal, mas um país imaginário, o país da diáspora. Pior ainda: apesar de termos em mãos documentos, certidões de toda ordem, genealogias, endereços, detalhes documentais que persegui durante meses realizando várias viagens, os fatos começam a escorrer por entre os dedos. Não fazem sentido, não se encaixam. E ocorre algo perturbador: é neste momento que se instala a ficção”.
O filme carrega em si todas estas dicotomias. Começa em tom assumidamente luso-melancólico, sublinhando nostalgias, saudades e tristezas tipicamente portuguesas. “É tudo tão bonito, é tudo tão triste”, diz em determinado momento a personagem Alice, jovem, diante do mar. O mesmo mar que fora responsável por tantas conquistas e riquezas daquele país. Ainda que tendo a melancolia como elemento catalisador, Caldeira não se furta em abrir escancaradas e libertárias digressões em sua história. Transita sem constrangimentos pelo romance, pelo mistério, pelo policial e até pela comédia, numa ótima cena com Tonico Pereira. Tem momentos de folhetim tanto em sua estética como em seu conteúdo (como um casamento proibido pelo abismo social, por exemplo), ao mesmo tempo em que nos brinda com um belo momento onírico, no qual o velho Studebaker do pai de Lucas se transforma num avião a voar por sobre as memórias do garoto.
É irregular, como irregular são as lembranças. É “uma espécie de “colagem mágica de pequenas invenções ficcionais para que os chamados fragmentos documentais se ajustem, se adaptem preenchendo lacunas e dando sentido ao todo”, como afirma o próprio Caldeira. “Até as perguntas sem respostas adquirem uma grandeza em seus mistérios não resolvidos, preservados em suas indagações. Não só minhas, mas também do próprio personagem que busca uma identidade”.
Seria verdade? Quem se importa? Importa se o filme é bom. “E este é o filme que melhor me realiza em toda minha carreira”, conclui o diretor.
Estreia nesta quinta, 31 de março.

