“HONESTINO” AINDA ESTÁ AQUI.
Por Celso Sabadin, de João Pessoa.
Como dizem, o preço da liberdade é a eterna vigilância. E cada vez mais se percebe como é fundamental aumentar a vigilância para evitar que o esgoto transborde novamente, como já transbordou em 1964 e em 2018. Uma das melhores ferramentas para manter a barbárie sufocada é difundir cada vez mais as nossas histórias de lutas pela liberdade. Como a de Honestino Guimarães, por exemplo, que eu não conhecia.
Ex-presidente da UNE – União Nacional dos Estudantes – e um dos grandes símbolos da resistência contra a ditadura civil-militar-empresarial de 1964, Honestino tem agora sua trajetória reconstituída no emocionante longa documental que leva seu nome, e que foi exibido na noite de ontem, 07/12, na Mostra Competitiva do 20º Fest Aruanda, em João Pessoa.
O filme caminha em duas linhas narrativas paralelas. A primeira consiste em depoimentos de familiares, amigos, políticos e militantes que conviveram com o biografado, como Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e – entre vários outros – o próprio diretor do longa, Aurélio Michilles. Um trabalho de fôlego, que reuniu mais de 60 depoentes, número maior que o dobro do que se costuma levantar, em obras similares.
A segunda linha narrativa é a da reconstituição ficcional, que sempre me causa muita apreensão. Motivo: reconstituições ficcionais em filmes documentais geralmente esbarram no piegas, e raramente funcionam. A boa notícia é que, no caso de “Honestino”, o recurso funcionou maravilhosamente bem, a ponto de – em determinadas cenas – até me causar uma certa confusão (no bom sentido da palavra) sobre o que era documental e o que era reconstituição. Inevitável pensar numa versão ficcional de “Honestino”, onde até poderia ser utilizado parte deste material produzido para o doc. Por que não?
Através do amplo painel de depoentes e da grande qualidade das cenas produzidas, “Honestino” abre o seu leque enfocando não somente a trajetória do personagem, como também episódios dos mais importantes da época, como a transição do governo JK, a criação da Universidade de Brasília, e a infame invasão militar desta mesma instituição. Uma verdadeira aula de História recente do Brasil que deveria constar em todos os currículos escolares.
“O cinema é um espaço privilegiado para refletir a memória do país. O longa se propõe a isso, não deixar cair no esquecimento a tragédia que foi a ditadura militar e honrar aqueles que lutaram contra a barbárie”, afirmou Nilson Rodrigues, produtor do filme.
A motivação pessoal do diretor também atravessa o documentário. Amigo de Honestino na juventude, Michiles acompanha desde o ano de 1968 a memória desse líder estudantil. Décadas depois, um vídeo do neto de Honestino, Lucas, durante a reinauguração da ponte que leva o nome do avô, foi o impulso final para que o projeto fosse realizado. “Nosso propósito é não deixar o personagem congelado numa fotografia antiga, mas torná-lo tangível, vivo. O ontem é hoje e o hoje pode ser o futuro”, define Michiles.
Quem dirige
AURÉLIO MICHILES nasceu em Manaus-AM (1952). Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB (1970/73). Na Escola de Artes Visuais, Parque Lage (77/78) cursa Artes Cênicas (Hélio Eichbauer, Rubens Gerchman, Lygia Pape). Desde os anos 80 atua na área de cinema e televisão. Trabalhou na FRM/TV Globo, TV Bandeirantes e SBT. Dirigiu diversos documentários para a TV Cultura – SP. Foi consagrado pelo longa-metragem “O Cineasta da Selva” (1997), que recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais. Em 2021 realizou o filme-doc: “Segredos do Putumayo” (2022), Prêmio APCA 2023; Prêmio Melhor Filme Sesc 2023; Melhor Filme Festival de Nice 2023 – Prix Du Public; Melhor Fotografia, ABC 2023; Menção Honrosa – É Tudo Verdade 2021; Melhor Filme X Kerry International Film Festival – Irlanda, 2023; Melhor Filme 8ª Festival Pan-Amazônico de Cinema – AMAZÔNIA FiDoc, 2022.
A programação completa do 20º Fest Aruanda está em www.festaruanda.com.br
Celso Sabadin viajou a João Pessoa a convite da organização do evento.
Texto publicado em www.planetatela.com.br

