HORRORES HUMANOS E POLÍTICOS EM “CORAÇÕES E MENTES”, AGORA EM DVD.
Por Celso Sabadin.
Durante um desfile festivo, um grupo protesta por melhores condições de trabalho, com faixas que dizem algo do tipo “Precisamos de empregos, não de paradas”. Uma senhora que assiste aos festejos, espumando de raiva, grita contra os manifestantes: “Vão protestar em Cuba!”.
A cena não acontece na Avenida Paulista, e nem é recente. Filmada nos Estados Unidos no início dos anos 70, ela faz parte do histórico documentário “Corações e Mentes” lançado agora em DVD no Brasil numa caprichadíssima edição da Obras Primas de Cinema que inclui um segundo disco recheado de extras e um rico livreto. O filme parece mais atual do que nunca. Sob os mais variados pontos de vista – social, humano, ambiental, econômico, bélico, político, racional, cultural – “Corações e Mentes” é um soco no estômago. Depoimentos de participantes da Guerra do Vietnã nos mais diversos níveis (soldados, oficiais, comandantes, familiares) montam um painel de absurdos que retrata não apenas os horrores intrínsecos de toda e qualquer guerra, mas que denuncia a imbecilidade dos processos de lavagem cerebral e a rede de mentiras que o governo dos EUA impôs ao mundo para tentar de justificar a legitimidade de um conflito injustificável.
Um general norte-americano afirma categoricamente que os orientais não sentem a morte com a mesma intensidade que os ocidentais, pois como no oriente há muita gente, a vida lá tem pouco valor. Um ex-prisioneiro de guerra, também estadunidense, faz uma palestra para dezenas de meninos e meninas na faixa dos 10 anos de idade dizendo que, mais cedo ou mais tarde, todos eles serão obrigados a lutar em alguma guerra. Um piloto de bombardeio diz que não imaginava que as bombas que ele lançava sobre o Vietnã pudessem causar sofrimento às pessoas. Um pai se orgulha de seu filho ter morrido num conflito que ajudou a barrar o comunismo no mundo. Em momentos diferentes ao longo dos anos, Kennedy, Johnson e Nixon discursam sobre a proximidade do fim da Guerra. Como se percebe o horror não está apenas nas bombas.
“Corações e Mentes” nem precisaria mostrar imagens do lado vietnamita para explicitar a barbárie. Mas mostra. E são nada menos que dilacerantes, com algumas delas se transformando em ícones não apenas do conflito como do próprio século 20. E até da história da Humanidade.
“Corações e Mentes” foi finalizado e lançado em 1974, ou seja, antes mesmo do término da guerra, com os nervos mundiais à flor da pele, e teve grande contribuição na campanha pacifista que naquele momento pedia a retirada das tropas americanas. Ao ser anunciado na festa do Oscar como o vencedor do prêmio de melhor documentário, causou desconforto e constrangimento na parte mais republicana da plateia e dos próprios apresentadores.
Se alguém ainda tem dúvidas que os EUA são o país mais nocivo para a Humanidade em todo o século 20 (e também o 21, até o momento), a recomendação é assistir a “Corações e Mentes”.

