NELSON XAVIER TEM DESPEDIDA DIGNA COM “COMEBACK”.  

Por Celso Sabadin.

A ironia está presente em vários detalhes de “Comeback”. O protagonista (Nelson Xavier, excelente em seu derradeiro filme) é um matador profissional. Mas seu nome é Amador. Em fim de carreira, numa época em que “não dá mais para sair matando por aí como a gente fazia antes” (no dizer de um dos personagens), Amador ganha a vida alugando máquinas de jogos de azar para botecos de quinta categoria na periferia de uma cidade qualquer. É forçado pelo seu patrão a negociar, ter jogo de cintura, pechinchar…  ações que em nada lembram seus tempos de simplesmente entrar, matar e sair. Sem negociações.

Em silêncio, Amador planeja voltar ao crime – o tal “comeback” do título – enquanto passa o tempo ensinando um jovem candidato a pistoleiro e folheando um velho álbum de recortes com suas façanhas criminosas.

Mesmo tendo um pistoleiro como protagonista, “Comeback” transita na contra mão dos filmes de ação rasa. Reflexivo, ele investiga as frustrações de um final de carreira que sinaliza um sinal de vida, remexe no baú das ilusões perdidas e dos sonhos jamais concretizadas. Tudo isso com um tempero agridoce que mistura nostalgia com momentos de refinado bom humor e deliciosos diálogos.

A bela fotografia noturna e a montagem lentamente cadenciada de “Comeback” captam com precisão e muito talento o clima de desolação do personagem e de seu entorno tanto geográfico como psicológico. E o filme flui com maestria.

Méritos para o roteirista e diretor goiano Erico Rassi, estreando aqui no longa de ficção. Conhecido no meio dos festivais, Rassi iniciou sua carreira em 2003 com o curta “Sexo com Objetos Inanimados”. Assinou um total de cinco curtas, com os quais ganhou mais de 30 prêmios em competições nacionais e internacionais. Realizou também os seriados de TV “Doceiras do Brasil”, “Giramundo” e “Mostra seu Mundo”.

O filme deu a Nelson Xavier, falecido no ultimo dia 10 de maio, o troféu de melhor ator no Festival do Rio 2016, além de ganhar os prêmios de direção e melhor filme pela crítica no FESTin – Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, em Lisboa.

A estreia é nesta quinta, 25 de maio.