O OLHAR ESTRANGEIRO DE “TRANSAMAZÔNIA”.
Por Celso Sabadin.
Antes de mais nada, cabe uma contextualização: este “Transamazônia”, que estreia nesta quinta, 08/01, em cinemas brasileiros, é uma ficção coproduzida entre Brasil, França, Alemanha, Suíça e Taiwan, sem relação alguma com o documentário brasileiro homônimo de 2020. Ah, e evidentemente sem nada a ver com o clássico do Bodanzky “Iracema, uma Transa Amazônica”, que teve distribuição em cópias novas, ano passado. É bom não confundir.
Nesta produção multinacional, a história gira em torno de Rebecca (vivida pela jovem atriz alemã Helena Zengel, que fez um trabalho impressionante em “Transtorno Explosivo”), única sobrevivente de um avião que caiu na Amazônia. Um corte de nove anos mostra a menina – agora uma jovem – atuando com seu pai (interpretado pelo estadunidense Jeremy Xido) numa pequena igreja evangélica no meio da mata, onde os fiéis incensam a garota como milagreira. A suposta paz entre pai, filha e crentes é quebrada por um confronto entre indígenas e madeireiros, que interrompe as estradas locais, isolando toda a comunidade. É dentro deste microcosmo que emergerão os diversos conflitos humanos que conduziram a trama.
A sul africana Pia Marais, corroteirista e diretora do filme, afirma ter se inspirado numa história real dos anos 1970 para criar a personagem da jovem sobrevivente que se torna uma figura messiânica em plena Amazônia. E que o restante do roteiro foi fruto de pesquisas que fez pela região. Verídico ou não, o desenvolvimento da trama tem o mérito de abordar questões ao mesmo tempo pessoais e sociais sem aquela preocupação netflixiana da obrigatoriedade de deixar tudo bem explicadinho no final. Conflitos pela terra, exploração religiosa, crenças, lealdades e traições… tem um pouco de tudo, e sempre temperado com uma sobriedade bem vinda que afasta o filme do que poderia ser apenas mais uma aventura na selva vista por olhos gringos.
O elenco, também multinacional, traz também Sabine Timoteo, Sérgio Sartório, Iwinaiwa Assurini, Pirá Assurini, João Victor Xavante, Kamya Assurini, e os brasileiros Hamã Sateré, Rômulo Braga, Philipp Lavra.
Filmado em Ananindeua e Belém, “Transamazônia” estreia em cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 08/01.
Quem dirige
Pia Marais é escritora e diretora, natural da África do Sul. Ela escreveu e dirigiu 3 longas-metragens. Seu primeiro longa, The Unpolished, ganhou o Prêmio Tigreno Festival de Cinema de Rotterdam em 2007. At Ellen’s Age foi exibido na competição em Locarno em 2010 e em mais de 30 festivais, incluindo Toronto. Layla Fourie foi ambientado em seu país natal, a África do Sul, e estreou na competição do Festival de Berlim de 2013, recebendo uma Menção Especial do Júri. Em 2018, ela fez seu primeiro documentário, Cari Compagni, para a Arte. Transamazônia é seu quarto longa-metragem.

