“O REGRESSO” MOSTRA AS BASES VIOLENTAS, ANIMALESCAS E INESCRUPULOSAS DA SOCIEDADE NORTE-AMERICANA.
Por Celso Sabadin.
Antenado, Alejandro González Iñárritu já aprendeu muito bem a lição: em Hollywood, para se fazer sucesso, não basta realizar um grande filme. É preciso criar uma espetacularização, explorar um factoide, dar ao público e à mídia algo diferente e, se possível, moderninho para que seu filme vire trendtopic ou viral. Sinal dos tempos. Se em “Birdman” ele acertou na mosca (mercadologicamente falando, é claro) com seu falso plano-sequência, em “O Regresso” a bola da vez agora é um violentíssimo (e muito bem produzido, é verdade) ataque de urso. Chega uma hora, nesta nossa superficial sociedade de consumo, que todo mundo corre para o cinema para ver o tal urso quase destroçando Leonardo DiCaprio. Com sugestões de estupro, ainda por cima. Não há dúvida que a cena é muito bem realizada, mas há mais para ver e refletir em “O Regresso” que o tal ursão.
Adaptação do romance “The Revenant: A Novel of Revenge”, escrito por Michael Punke e publicado em 2002, o filme busca resgatar a história real de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), uma espécie de guia que orientava as expedições de caça, no século 19. É evidente que muitas histórias e lendas orais sobre a inacreditável saga de um homem abandonado na floresta, à beira da morte, após ser atacado por um urso, povoaram o imaginário norte-americano nos últimos 200 anos, mas não é o foco do filme buscar a exata realidade dos fatos, muito menos criar uma expectativa sobre o êxito ou não do protagonista, mesmo porque até o título já deixa claro que ele regressará. Muito mais interessante é perceber o painel da formação histórica do povo estadunidense que o filme acaba construindo.
Temos antes de mais nada, logo na primeira cena, a iniciativa comercial como senhora e dona da situação: os caçadores de pele, sanguinários até a medula, têm no povo indígena a principal barreira contra sua empreitada. A solução então é “simples”: exterminar quem os impedir de fazer dinheiro. Nota-se também que estes “empreendedores comerciais do negócio de peles” têm todo o amparo legal do governo e do exército norte-americano, com oficiais comandando as expedições de caça e totalmente ativos na questão da matança dos nativos. Num segundo momento, nota-se a desintegração dos valores humanos dentro do próprio grupo de caçadores, que se mostra na verdade um bando cruel de homens animalizados, traidores, destruidores e, obviamente, preconceituosos contra os índios, mesmo sendo um mestiço o filho do homem que os guia em segurança pela floresta.
Ou seja, em “O Regresso” vemos o capitalismo feroz como força destruidora da natureza e das minorias, alimentada pelo governo e pelo exército, e comandada por indivíduos animalizados e sem escrúpulos, tudo sob a égide da violência e da matança indiscriminada. Um perfeito retrato da formação da sociedade estadunidense.

