OS HIPNÓTICOS DARDENNE DE VOLTA NO BELO E CRUEL “DOIS DIAS, UMA NOITE”.
Por Celso Sabadin.
Há algo de hipnótico no cinema dos irmãos Dardenne. O silêncio, a câmera próxima e flutuante, a humanidade das tramas, a credibilidade dos personagens, a naturalidade do elenco… tudo isso nos envolve lentamente e de repente nos vemos fisgados pelos filmes que eles realizam, por mais simples que seja a história. Ou talvez justamente por isso mesmo, pela simplicidade das histórias. Foi assim em “A Criança”, “O Filho”, “O Silêncio de Lorna”, “O Garoto de Bicicleta”, e novamente agora em “Dois Dias, Uma Noite”.
Aqui, acompanhamos durante dois dias e uma noite o martírio de Sandra (vamos falar novamente que Marion Cotillard é ótima?), uma mulher submetida pelo seu patrão a uma tortura psicológica típica das relações corporativas do mundo empresarial: para permanecer no emprego, ela precisa convencer seus colegas de trabalho a abrirem mão de um bônus em dinheiro. É a gratificação ou ela. Somente nas relações capitalistas apodrecidas por um sistema em crise financeira e assombradas pelo fantasma do desemprego que se vê possível uma situação tão cruel como a proposta pelo filme, que coloca uma funcionária em rota de colisão com os próprios colegas de trabalho. Digladiando-se os funcionários, vence o patrão. É o “governar para dividir” empresarial.
Assim, Sandra só tem uma opção para tentar salvar seu emprego: humilhar-se, batendo de porta em porta de seus colegas, durante um final de semana, suplicando pela própria sobrevivência. A cada porta, ela encontrará uma maneira diferente de encarar a vida, uma reação, enfim, uma surpresa sempre à espreita.
Enfatizando a dor da situação, os diretores utilizam uma repetição angustiada e angustiante desta verdadeira Via Crucis da protagonista. Uma peregrinação repleta de provações que nos coloca em contato com o que o ser humano possa apresentar de pior e de melhor. Extremamente crítico e ácido em sua total sobriedade, “Dois Dias, Uma Noite” é mais uma pequena preciosidade do Dardenne.
“Dois Dias, Uma Noite” foi o representante da Bélgica para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015. Com ele, Marion Cotillard ganhou prêmios em baciada, como
no European Film Awards, New York Film Critics Circle, no
The National Society of Film Critics e no New York Film Critics Circle.

