“PALOMA”. PORQUE A DISCUSSÃO DA TRANSEXUALIDADE É URGENTE.

Por Celso Sabadin.

Por mais que o tema ultimamente tenha merecido mais espaço na mídia, o Brasil continua sendo o campeão mundial de intolerância sexual, configurando-se tristemente no país que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo, já há 14 anos (não havia levantamentos sobre o assunto, antes de 2008). Segundo dados do relatório de 2021 da Transgender Europe (TGEU), entidade que monitora números globalmente levantados por instituições trans e LGBTQIA+, 70% de todos os assassinatos registrados aconteceram na América do Sul e Central, sendo 33% no Brasil, seguido pelo México, com 65 mortes, e pelos Estados Unidos, com 53. Assim, a estreia de “Paloma” nos cinemas brasileiros é, mais que um lançamento cinematográfico, um ato político.

Inspirado em um caso real, o longa fala de Paloma (a estreante em cinema Kika Sena), mulher trans, trabalhadora rural, feliz e bem resolvida em seu relacionamento com o pedreiro Zé (Ridson Reis).

Como não poderia deixar de ser neste país bolorento, não faltam preconceitos contra o casal, mas Paloma é superior à pequenez dos comentários que entreouve pelas ruas. Sua felicidade ao lado de Zé é tanta que o sonho da garota é se casar na igreja, de véu e grinalda, nem que para isso ela tenha de recorrer ao Papa. No caso, literalmente.

Enquanto o amor de Zé e Paloma é circunscrito às quatro paredes dos apaixonados, a tensão preconceituosa é contornável e camuflada pela hipocrisia. Porém, quando o desejo de Paloma começa a repercutir, a pequena cidade pernambucana de Saioá (embora na realidade as filmagens tenham acontecido em Crato) entra numa espiral doentia de intolerância que se espalha com o furor avassalador do ódio ignorante.

A direção do filme traz pelo menos duas grandes qualidades que se sintonizam à perfeição com as características principais da protagonista da obra: elegância e vigor. Com força e sobriedade, “Paloma” filme e Paloma personagem formam um corpo único e indivisível de dignidade e resistência que, em momento algum, se rende à autocomiseração e – pelo contrário – transforma o que poderia descambar em vitimismo sentimental em luta e honradez.

Grande parte desta admirável potência do filme deve ser creditada à atuação de Kika Sena, arte-educadora, diretora teatral, poeta e performer que se torna, em “Paloma”, a primeira atriz transexual a receber o prêmio no Festival do Rio.

Coproduzido por Brasil e Portugal, “Paloma” tem roteiro de Gustavo Campos, Armando Praça (diretor do ótimo “Fortaleza Hotel”) e do próprio diretor, Marcelo Gomes.

O recifense Marcelo Gomes foi corroteirista de “Madame Satã” (2002), de Karim Aïnouz. Em 2005, lançou seu primeiro longa, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, e em 2012 dirigiu e roteirizou “Era uma vez eu, Verônica”. “O Homem das Multidões”, que codirigiu no ano seguinte com Cao Guimarães, foi selecionado para a mostra Panorama em Berlim. Seu filme de ficção mais recente, “Joaquim” (2017), foi selecionado para a competição oficial no mesmo evento. É também diretor do documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de 2019.

Escolhido como o Melhor Longa da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio de 2022, “Paloma”, estreou na última quinta, 10/11, nos cinemas de São Paulo, Curitiba, Maceió, Fortaleza, Aracaju, Manaus, Rio de Janeiro, João Pessoa, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Recife, Rio Branco, Brasília e Niterói.