“QUEM SE IMPORTA” BUSCA ACENDER CONSCIÊNCIAS.

Conversei há duas semanas com Wellington Nogueira, do ‘Doutores da Alegria’, nos bastidores do programa “Todo Seu” e ele já havia me adiantado algumas coisas sobre o novo (e segundo) documentário da cineasta Mara Mourão, justamente posterior ao “Doutores da Alegria” que estreitou laços pessoais e profissionais entre ambos: trata-se de “Quem se Importa”, em lançamento modesto nesta sexta, dia 13 em São Paulo, e na semana que vem no Rio de Janeiro.

Foi a convivência e amizade com Wellington o que justamente motivou Mara a realizar este doc, cujo título não tem interrogação, pois é afirmativo: é um registro bastante claro e emocional, mesmo que rápido (em 90 minutos), sobre alguns dos maiores empreendedores sociais em atividade no planeta.

Mara colheu depoimentos em nove países – além do Brasil, ela viajou até os EUA, Canadá, Suíça, Paraguai, Peru, Bangladesh, Nigéria e Tanzânia – e conversou com alguns dos mais expressivos empreendedores sociais, aqueles que, em sintonia com as necessidades do em redor, tiveram uma ideia de início muito simples que por fim teve força modificadora na comunidade e além desta, seja com a criação de microcrédito comunitário, inclusão digital, acessibilidade do sistema de saúde, conectividade global, rede de financiamentos internacionais, entre tantas ações. A diretora conversou, entre outros, com o Nobel da Paz Muhammad Yunus e com Bill Drayton, o fundador da Ashoka, ONG pioneira no apoio a estes empreendedores – além de com o próprio Wellington, claro!

Nogueira é o primeiro a afirmar que este doc não pretende ser um sucesso comercial nas bilheterias, ele sabe das limitações de alcance de um filme destes no circuito exibidor. Quer-se mesmo que o doc circule, em escolas, em comunidades, em locais em que a sua premissa e conteúdo possam ajudar a fazer alguma diferença. Afinal, em linhas gerais, “Quem se Importa” trata da ética do cuidado e conversa com seres humanos comuns que um dia tiveram a inspiração, ou a iluminação, de com ações e gestos alcançar um objetivo comum, o crescimento humano de todos os envolvidos. O doc é muito feliz em ressaltar o caráter altruísta, acima de egos, das iniciativas de empreendedorismo, que partem do princípio que a miséria – qualquer uma delas, material, estrutural, intelectual, emocional ou psicológica – não é inerente à natureza humana e sim a ela foi imposta.
Na contramão do pessimismo que reina o mundo, Mara deixa claro que ‘nunca antes na História deste planeta’ houve tantas pessoas conectadas entre si e conscientes dos rumos e necessidades globais, projetando expectativas positivas para o amanhã, muitas vezes a partir de gestos mínimos. E viva a internet, que facilita esta crescente postura global! Alguns dos depoimentos são comoventes, diante do desarme e transparência emocionais, são muitos os causos de transcendência humanista.

Afinal, no empreendedorismo social, o ato só se completa quando as duas partes evoluem, num processo em que, mais importante até do que o resultado concreto em si, o que importa é o aprendizado durante a jornada. Wellington coloca uma questão interessante, no contexto: como seria um mundo que por inteiro acordasse todas as manhãs com a única intenção de buscar e praticar a alegria? Será este um futuro viável ou anunciado?

“Quem se Importa” tem uma clara função didática e introdutória para todos aqueles que pouco sabem a respeito das ações destes agentes sociais do bem. Mas para além da sinceridade e da invejável lucidez de muitos dos depoimentos, Mara Mourão embalou seu filme a ponto de torná-lo empático e interessante aos desavisados, seja pela narração em off de Rodrigo Santoro, pela emotiva e melodiosa trilha sonora de Alexandre Guerra ou pelas excelentes vinhetas animadas que comentam muitas das situações, dirigidas por Renato Battaglia (Camaleão Filmes) e Sylvain Barré (Citronvache). Acima de uma análise crítica e estética, este doc existe e se justifica como porta-voz de uma urgente consciência global, como cartão de visitas para seres humanos transformadores em busca de maiores transformações.

Aquelas que fazem toda a diferença no mundo, e ampliam as possibilidades de alegria em vida.