REFLEXÕES (NÃO É UMA CRÍTICA) SOBRE “MULHER MARAVILHA”.
Por Celso Sabadin.
Como já era mais do que esperado, a sessão de imprensa de “Mulher Maravilha” estava lotada. Muitos blogueiros, youtubers, palipiteiros… tinha até jornalistas. Ao final, aplausos para o filme. Num primeiro momento, meu lado jornalista reprovou este comportamento tão profissionalmente inadequado que é aplaudir filmes e coletivas, tirar selfie com entrevistado, estas coisas. Mas tudo bem. Numa era em que o pessoal está tirando selfie até com o pôster do filme, lembrei que este meu incômodo não tinha razão de ser, mesmo porque a profissão de jornalista já faz um tempo que acabou. O crítico de cinema, seguindo os passos do mico leão dourado, da nota de 1 real e dos datilógrafos, também está em extinção.
Compreendo a exaltação da plateia aplaudinte. Afinal, estávamos diante de um magnífico exemplar representativo da nossa mitologia contemporânea, qual seja, o simulacro cinematográfico do super-herói. Cada época e cada povo tem a sua mitologia. Gregos, romanos, nórdicos e celtas, só para citar alguns exemplos, foram profícuos e prolíferos na arte de fornecer para o mundo o mais diversificado leque de seres e histórias mitológicas. Obviamente, através dos milênios, vários deles se amalgamaram e resultaram em novas culturas mitológicas, o que é absolutamente natural. A própria mitologia católica é campeã em tomar emprestado datas e acontecimentos da mitologia judaica, da mesma forma que os romanos eram mestres em plagiar os gregos, e assim por diante.
O fato é que, nesta caldeirão cultural, os super-heróis desenvolvidos nas histórias em quadrinhos quase sempre produzidas nos Estados Unidos emergem como a maior releitura da mitologia da primeira parte do século 20. Seres fantásticos com poderes inimagináveis aliados a tramas repletas de magia, dramas, destruições e tragédias fizeram de Batman, Super Homem, Thor ou Hulk versões contemporâneas de Zeus, Hades, Odin ou Ciclope, não necessariamente nesta ordem, nem neste mesmo encadeamento de ideias. O fato é que a proximidade da Segunda Guerra Mundial acabou inadvertidamente repaginando os deuses e semideuses milenares em novos heróis e super heróis direcionados, via HQ, para um público jovem, agora descoberto como consumidor.
Lidos, relidos e cultuados com voracidade pela juventude dos anos 30 aos anos 80, estes novos heróis invariavelmente tinham seus voos limitados à bidimensionalidade dos gibis, posto que as tentativas de adaptá-los à grande mídia do século 20 – o cinema – conseguiam apenas torná-los ridículos. Tanto nos cinesseriados dos anos 1930 e 40, como nos longas metragens dos 80, os super heróis só passavam vergonha. Das orelhas caídas do Batman interpretado por Lewis Wilson nos seriados da Columbia de 1943, à patética sunguinha roxa do Fantasma que Billy Zane encarnou em 1996, quase nada se salvou. À exceção, talvez, do Super Homem de Chistopher Reeve, os outros heróis que foram transportados dos quadrinhos de papel para o celuloide da telona acabaram pagando grandes micos. Motivo: o cinema ainda não havia desenvolvido tecnologia suficiente para dar credibilidade às fantásticas fantasias dos gênios criadores dos quadrinhos. Desenhar um sujeito que veste a cueca por cima da calça é uma coisa; fazer um ator de verdade interpretar isso e expô-lo na gigante tela de um cinema já é bem mais difícil.
Mas veio o desenvolvimento das imagens geradas por computadores e tudo mudou. De repente (ok, não tão de repente assim), o mundo criado em papel ganhou dimensão, formas, texturas e – principalmente – credibilidade cinematográficas, e com certeza eu não preciso ficar agora dizendo aqui o que nos últimos anos tem significado para a indústria e para o entretenimento as versões cinematográficas de Batman, Super Homem, Homem Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, todo aquele interminável time de mutantes … quem mais? É só dizer.
A Mulher Maravilha desponta esta semana como a mais recente estrela desta constelação. Com roteiro bem amarrado, protagonistas carismáticos, efeitos especiais de última geração, muita ação e aventura, reconstituições de época fantásticas (a ilha das amazonas é meio cafoninha, mas tudo bem, talvez seja uma homenagem à “Ilha da Fantasia”) e liçãozinha de moral e bom costumes no final, ela explode na tela como o que há de mais novo (hoje) em mitologia contemporânea. O que os quadrinhos imaginaram, os cineastas tornaram palpável, e toda a força de um personagem contemporaneamente mitológico ganha vida em I-Max, 3D e Som sei lá o quê.
Estes novos filmes de super heróis são o sonho de uns pares de gerações se transformando em – quase- realidade bem na frente dos nossos olhos (ainda que eles estejam com a visão prejudicada por estas porcarias de óculos 3D que tiram a luminosidade e o brilho da imagem).
Mesmo assim… na boa? Não tem como não aplaudir.

