“REJEITO” É SUBSTANTIVO. VERBO E ATITUDE.
Por Celso Sabadin.
Fico bem indignado (ia escrever puto, mas pega mal) quando vejo empresas totalmente nocivas à sociedade brasileira patrocinando atividades culturais para tentar “livrar a cara” das atrocidades que elas cometem contra o nosso país. Dando nome aos bois (no caso, aos urubus): Vale, Shell e Netflix, por exemplo.
Assim, lava minha alma assistir a produtos culturais que não se deixam vender por tais atos marqueteiros e de fato metem a boca no trombone. Caso de “Rejeito”, documentário que chega aos nossos cinemas nesta quinta, 30/10. Sem rodeios nem atenuantes, o longa simplesmente expõe com clareza as atitudes criminosas da Vale não somente em relação às tragédias ocorridas em Mariana e Brumadinho, como também denuncia a próxima hecatombe em curso chamada de Projeto Apolo.
Em um momento em que aproximadamente 100 barragens em todo o Brasil seguem em risco de rompimento – segundo estudo do Projeto EduMiTE, da Universidade Federal de Minas Gerais -, “Rejeito” acompanha personagens reais impactados diretamente pelo rompimento de barragens e mineração e pesquisadores, como a ambientalista Maria Tereza Corujo (Teca), registrando momentos emblemáticos, como a reocupação da comunidade de Socorro, removida após o rompimento de Brumadinho.
“Ao longo do processo, entendi que o tema central do filme é sobre território, sobre relação com o rio, com a terra, e não uma simples espetacularização dos desastres ambientais”, afirma o diretor, que há mais de uma década documenta os conflitos provocados pela mineração na América Latina.
É impossível ficar indiferente diante do filme, que resulta de quatro anos de pesquisas e produção e já coleciona premiações em eventos internacionais como Melhor Filme no FICMEC (Espanha), CineEco (Portugal), Festival Sarancine e Mostra Ecofalante; além da Menção Especial do Júri no Indie Memphis (EUA) e o Prêmio da Juventude no CineEco. O realizador Pedro de Filippis também foi reconhecido com o prêmio de Melhor Direção no FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental. O filme ainda conquistou o Prêmio do Júri Escolar no One World Romania (Romênia).
Veja o filme e pense melhor antes de aplaudir qualquer patrocinador apenas porque ele se esconde sob as asas benevolentes dos patrocínios culturais.
Quem dirige
Pedro de Filippis é cineasta mineiro e pesquisador com trajetória ligada a movimentos sociais e comunidades atingidas pela mineração. Seu curta de estreia, Os Pêssegos da Cornicha (2009), iniciou sua investigação sobre o pós-colonialismo e foi premiado em festivais nacionais. Formado pelo programa internacional Doc Nomads, dirigiu filmes em Portugal, Hungria e Bélgica. É alumni do Logan NonFiction e do Points North Fellowship, e foi nomeado ao prêmio Global Emerging Filmmaker pela Netflix e IDA em 2021. Rejeito é seu primeiro longa-metragem.

