“RESET” REGISTRA A TENTATIVA DE UM NOVO BALÉ. OU DE UM MUNDO MAS LEVE.
Por Celso Sabadin.
Não há dúvida que “Reset – O Novo Balé da Ópera de Paris” é um filme que fala muito mais de perto à sensibilidade de um público fã de dança. Mas não é só isso. Ao documentar todo o processo de criação e preparação de um novo espetáculo dirigido pelo coreógrafo e dançarino Benjamin Millepied no tradicionalíssimo Ópera de Paris, “Reset” cria um belo contraponto entre o novo e o antigo. Entre o revolucionário e o conservador.
Recém-chegado ao Ópera, Millepied (conhecido por coreografar as sequências de dança no filme “Cisne Negro”, estrelado pela esposa Natalie Portman), tenta montar seu novo balé – denominado “Clear, Loud, Bright, Forward” – baseado em suas convicções pouco ortodoxas dentro do competitivo universo da dança. Sempre exalando muita tranquilidade, sem jamais levantar a voz ou dar os famosos pitis tão recorrentes deste ambiente, ele propõe um trabalho prazeroso e sem sofrimentos. Questiona os limites tradicionais entre as danças clássica e contemporânea, e condena o terrorismo competitivo que abala jovens candidatas a bailarinas desde muito pequenas. Trata-se de um coreógrafo/bailarino diferenciado, esportista, com vivências profissionais na África, e defensor da ideia que é preciso respeitar as individualidades, já que nenhum bailarino dança igual ao outro. Enfim, um quebrador de dogmas dentro de um mundo repleto de camisas de força.
As câmeras dos diretores Thierry Demaizière e Alban Teurlai quase nunca abandonam o ambiente do Teatro. Eventualmente, seguem Millepied pela rua apenas para um café ou uma refeição rápida do coreógrafo, feita sempre sem que isso signifique a interrupção do seu exaustivo trabalho. Mas logo regressa para dentro dos muros do Ópera, onde serão trabalhadas não apenas as questões relacionadas diretamente ao contexto artístico, como também itens menos atrativos, como orçamentos, contabilidade e greves de funcionários. Não se vê, no filme, a vida pessoal de ninguém envolvido na produção, como que sublinhando que, neste universo, e a poucas semanas da estreia, o trabalho ocupa todos os tempos e espaços. Vagos ou não.
Também não há depoimentos diretos para a câmera, o que dá ao filme um bem-vindo tom investigativo e intimista. Um momento icônico em “Reset” mostra como Millepied poderá, sim, trocar o revestimento do piso do palco do Ópera, para suavizar o impacto de seus bailarinos. Mas que será impossível substituir a estrutura deste mesmo piso, fixada no teatro já há muitas décadas. Simbólico.
A estreia é na quinta 25 de maio.

