“RUMO”: DELÍRIO, MEU, DELÍRIO!

Por Celso Sabadin

Dizem que o bom crítico de cinema deve sempre manter um – digamos assim – distanciamento pessoal da obra a ser criticada, para que seu julgamento seja o mais preciso possível. Se isto for verdade – e talvez seja – prepare-se, amigo leitor, amiga leitora, para ler uma crítica absolutamente contra os padrões técnicos: eu simplesmente mergulhei de cabeça e me apaixonei perdidamente pelo documentário “Rumo”, roteirizado, dirigido e produzido por Flavio Frederico e Mariana Pamplona.

Impossível ver o filme com “distanciamento técnico” para quem viveu aquela época. E eu vivi. Colega que era, na Cásper Líbero, de alguns integrantes do Grupo Língua de Trapo, comumente matava aula na Faculdade para ir – com a turma toda – ver alguns shows no Teatro Lira Paulistana, marco da música alternativa paulistana que emergia naqueles anos 1980. Daí a conhecer o trabalho do Itamar Assunção, do Arrigo Barnab, do Premeditando o Breque (era assim que chamava, na época) é e – claro – do Rumo, foi apenas um pequeno passo para o homem, e um gigantesco passo para a Cultura. Toda aquela movimentação extrapolava os limites de um mero movimento musical: era o encontro da resistência através do humor e da pesquisa sonora, ao sabor do tempero paulistano, meu!

E nisso reside o maior mérito do documentário: o longa não apenas registra, não apenas documenta este movimento, como capta escancaradamente a alma daquele tempo e daquele espaço, fazendo explodir na tela os sentimentos e as sensações daquele instante tão importante para toda uma geração que começava a sair dos porões da ditadura.

É evidente que o foco principal é o Rumo, mas o filme vai além, ao contextualizar o grupo com todas as energias criativas que o cercavam e o complementavam dentro do panorama musical da época. Percebe-se uma USP fervilhante, um cenário jovem de inquietação, denuncia-se a crônica questão dos donos das vozes sufocando qualquer tentativa não comercial de expressão sonora, tornando inevitável a comparação com o momento atual.

É de deixar qualquer um boquiaberto a exibição de um clipe do Rumo – em linguagem absolutamente alternativa – no poderoso programa Fantástico, no longínquo 1985. É ver o clipe e chorar, simplesmente por perceber que tal abertura a um grupo não comercial nunca mais será possível na maior emissora do país, dentro do esquema de emburrecimento total que vive a nossa mídia contemporânea, já há um bom tempo.

É de estarrecer rever, hoje, o espaço que a televisão dava para que um então alternativo Maurício Kubrusly derrubasse e detonasse as falcatruas das gravadoras que, na época, matavam a música regional brasileira (hoje já mataram).

Vendo estes e tantos outros registros presentes no documentário, surge inevitavelmente a pergunta: onde foi exatamente que todos se perderam e se renderam exclusivamente para as demoníacas forças do mercado, do consumo fácil e rápido, sufocando as mais diversas manifestações artísticas alternativas, em todos os campos do conhecimento? Quando foi que exatamente isso aconteceu e por quê?

O filme provoca tudo isso. Um delírio, meu, delírio de questionamentos que nos transportam àquela década de 1980 que alguns consideram “perdida”, mas que eu acredito que deva ser reencontrada. Precisamos de novos porões de novas liras paulistanas que façam florescer novas línguas de trapo, novas diversões eletrônicas e novos rumos. Porque os que estamos traçando hoje já se mostraram toscos e insuficientes.

Ah, sim, não falei nada sobre o grupo Rumo propriamente dito. Nem vou falar. Veja e ouça o filme, que lá tem tudo sobre ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RUMO

 

Gênero: Documentário de longa metragem

 

Duração: 77 min.

 

Ano de Finalização: 2019

 

País de Produção: Brasil

 

Classificação indicativa: livre

 

Cor: Colorido

 

Formato de Exibição: Digital (DCP) NTSC

 

Janela de exibição: 16:9 (1,79)

 

Som: Dolby Digital 5.1

 

 

 

Equipe:

 

 

Produção Executiva: Flavio Frederico

 

Direção Fotografia: Carlos André Zalasik

 

Montagem: Oswaldo Santana

 

Editor de Som (Sound Designer): Eduardo Santos Mendes

 

Som Direto: Fernando Russo e Luis Rovai

 

Música Original: Jonas Tatit

 

Ilustração: Fernando Heynen

 

Animação: Mao Ambrosio

 

Empresa Produtora: Kinoscópio Cinematográfica