“SEXA”: O ESTILO TELEVISIVO NA ESTREIA DE GLORIA PIRES NA DIREÇÃO.

Por Celso Sabadin.

Há algumas semanas, caiu na mídia a informação que os responsáveis pela produção de conteúdo nos streamings estavam orientando os seus roteiristas para sempre valorizar a redundância, ou seja, a repetição de informações durante o transcurso da trama. Isso porque pesquisas detectaram que os consumidores de filmes em streamings têm o hábito de assisti-los ao mesmo tempo em que estão entretidos com seus celulares. Ou seja: como os filmes em streamings são consumidos sem muita atenção, recomenda-se que o roteiro repita várias vezes as mesmas informações que sejam necessárias ao acompanhamento da história, para que o público, distraído, não se perca.

Foi inevitável me lembrar disso – e muito – quando assisti a “Sexa”, estreia em cinemas desta quinta, 11/12. No longa, Gloria Pires vive Bárbara, uma mulher profundamente incomodada por estar completando 60 anos de idade. Ela está muito incomodada e perturbada por estar fazendo 60 anos. No dia de seu aniversário de 60 anos ela se mostra bastante incomodada pelo fato de ser sexagenária, e durante os 10 primeiros minutos de filme você vai ver e ouvir muitas vezes que ela está incomodada por fazer 60 anos. Inclusive, o incômodo da protagonista se dá pelo fato dela estar completando 60 anos, já falei isso?

Tal redundância no audiovisual, fator que desagrada muito os cinéfilos, é justamente um dos elementos mais utilizados na telenovela. Como se sabe, a telenovela brasileira – herdeira direta e legítima da radionovela – lança mão muito mais do áudio que do visual, mesmo porque normalmente ela é consumida com o público longe do receptor de TV, que prefere ouvi-la enquanto faz alguma outra coisa a propriamente vê-la.

Assim, é bastante compreensível a opção mercadológica do filme “Sexa” em abraçar o estilo telenovelístico, na medida em que seu principal atrativo é a presença sempre marcante e telemidiática de Gloria Pires tanto no papel principal, como na direção, onde estreia. Sob o comando de Gloria, toda a equipe de direção é feminina. E o roteiro é de Guilherme Gonzalez, autor de várias séries de TV.

Tudo no filme remete à linguagem televisiva: a linearidade da trama, a ausência de qualquer tipo de sutileza, a onipresença da trilha musical, as interpretações sempre uma oitava acima do tom, a previsibilidade, o encadeamento das cenas apoiado em imagens turísticas do Rio de Janeiro (com drone, óbvio)… e a já citada redundância, que não vou citar de novo para não ser redundante.

“Sexa” é um filme que provavelmente os cinéfilos não vão curtir. O mesmo já não se pode dizer dos noveleiros.

Além de Gloria Pires, o elenco tem Thiago Martins , Isabel Fillardis e Danilo Mesquita, com participações de Eri Johnson, Rosamaria Murtinho, Dan Ferreira e Déa Lúcia.