TIRADENTES 2017: O ERUDITO E O SINGELO EM DOIS DOCUMENTÁRIOS.  

Por Celso Sabadin, de Tiradentes.

De um lado, Gabriel García Márquez, Ruy Guerra, Chico Buarque de Hollanda, personalidades que viram tudo, vivenciaram tudo, sabem tudo. Do outro, Juscelino Alkimin, um homem que sai dos confins do interior de Minas Gerais para ver o mar pela primeira vez. Universos tão diferentes inspiraram dois documentários igualmente diferentes, ambos exibidos, em sequência, na tarde/noite de ontem (24/01) na 20ª Mostra de Tiradentes: “O Homem que Matou John Wayne” e “Homem Peixe”.

Dirigido por Diogo Oliveira e Bruno Laet, “O Homem que Matou John Wayne” documenta o pensamento e o estilo cinematográfico de Ruy Guerra. Moçambicano de nascimento e brasileiro por adoção, Guerra expõe no longa desde suas primeiras memórias afetivas que o levaram a fazer cinema, até as suas concepções subjetivas do ato de fazer imagens, da sua não necessidade de realizar filmes absolutamente compreensíveis, e do seu desinteresse pelo cinema “explicadinho” preocupado somente em traçar relações de causa e efeito. Tudo entremeado por cenas vigorosas de seus filmes, momentos históricos de bastidores, e depoimentos de personalidades como   Chico Buarque de Hollanda, Gabriel García Márquez e Werner Herzog, entre outros. A explicação de como e porque Ruy “matou” John Wayne num encontro casual ocorrido num hotel em Hollywood é a cereja deste pequeno mas precioso bolo documental que, ao seu modo, contribui, para um bem-vindo mapeamento do cinema brasileiro.

Já “Homem-Peixe” documenta o sempre fascinante momento de uma descoberta. Juscelino Rocha Alkmim é um homem de extrema simplicidade que mora numa pequena comunidade do interior de Minas Gerais. Sua viagem até a Bahia e seu encantamento em ver o mar pela primeira vez traçam a linha narrativa deste momento mágico que só pode ser experenciado uma única vez. Dirigido por Clarisse Alvarenga, o longa faz a acertada opção de apenas seguir seu protagonista, interferindo pouco, quase nada, respeitando o ritmo lento da região visitada, e propondo ao espectador uma imersão neste novo universo. Curioso, Juscelino pergunta sobre tudo aos seus anfitriões baianos. Quer saber o funcionamento das marés, troca histórias de vida com os habitantes locais, mostra-se sempre um bom ouvinte, fascina-se com as conchas e espanta-se com a salinidade da água. São pequenas mas riquíssimas descobertas deste homem adulto que não esconde sua euforia infantil ao tomar contato com as pequenas maravilhas do dia-a-dia que ganham novos contornos mesmo diante dos olhares mais cansados. Tudo é novidade quando se vê pela primeira vez. A bela fotografia de Bruno Vasconcelos e o ritmo contemplativo do filme ajudam a tornar “Homem Peixe” uma bela experiência sensorial para quem se dispuser a, como seu protagonista, descobrir novidades em cima do que já é supostamente conhecido.

Celso Sabadin viajou a Tiradentes a convite da organização do evento.