“TRÓPICO FANTASMA”, MICRODRAMA HUMANO EM UM GRANDE FILME.
Por Celso Sabadin.
Na minha modesta opinião, um dos melhores filmes do ano até agora, “Trópico Fantasma” fala de uma mulher que pega no sono no metrô e perde a estação em que deveria descer. Prova de que a mais simples das ideias, o mais minúsculo dos dramas pelos quais passamos durante a vida, pode render grande obras, quando realizadas com arte e criatividade.
Morando em Bruxelas, a faxineira de origem árabe Khadija (Saadia Bentaïeb) sai do serviço e toma o último metrô rumo à sua casa, como faz há muitos anos. No vazio do vagão, ela adormece e vai parar na estação terminal, bem distante de onde deveria estar. Como nunca acontecera antes. E pior: sem dinheiro para voltar.
Começa assim uma microssaga humana sobre o clássico tema do regresso ao lar, tendo como pano de fundo uma fria madrugada povoada por tipos urbanos solitários.
O que haveria de tão especial em “Trópico Fantasma” para credenciá-lo a receber – até agora – os 3 prêmios e 11 indicações em festivais pelo mundo que já ganhou? A resposta está no velho ditado “menos é mais”. Neste seu terceiro longa, o roteirista e diretor belga Bas Devos consegue criar um clima de profunda imersão sensorial embalada por hipnóticos tempos mais do que estendidos envolvidos por poéticos silêncios. A poética imperfeição das imagens captadas em 16 milímetros com suas características texturas de grãos maiores acrescentam um elemento onírico a mais na trama.
“Trópico Fantasma” constitui-se assim em um potente antídoto contra o desassossego ansioso desta nossa contemporaneidade que elegeu a fragmentação de imagens e sentimentos como linguagem predominante e enlouquecedora.
Um verdadeiro oásis audiovisual que reabastece com arte corações, mentes e ânimos.
Selecionado para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, “Trópico Fantasma” (que não tem nada de tropical, tampouco de fantasmagórico) está disponível na plataforma www.supomungamplus.com.br

