“UM OLHAR DO PARAÍSO” REÚNE SPIELBERG E PETER JACKSON.

Dois nomes de (muito) peso do mercado cinematográfico se unem para adaptar para as telas um livro de sucesso: Steven Spielberg na produção e Peter Jackson na direção. Obviamente, com enorme expectativa. O resultado é “Um Olhar do Paraíso”, tragédia emotiva e perturbadora baseada no livro de Alice Sebold.

Assim como no clássico “Crepúsculo dos Deuses”, “Um Olhar do Paraíso” também tem sua história contada por um narrador “morto”, ou seja, por uma personagem assassinada. Mas as semelhanças ficam por aí. Enquanto o filme de Billy Wilder usa (e ousa) o recurso como sarcasmo, o de Peter Jackson trilha o caminho do trágico para contar um drama familiar.

Nos anos 70, a adolescente Susie (Saoirse Ronan, de “Desejo e Reparação”, ótima) é a filha perfeita de uma família perfeita. Até se transformar em vítima fatal de um criminoso sexual (Stanley Tucci, também ótimo, bastante modificado por uma maquiagem especial). Assim que é morta, Susie é transportada para uma espécie de limbo, de onde passa a acompanhar duas das maiores dores que um ser humano pode vivenciar: o terrível sofrimento de sua família, que começa a desmoronar após a perda, e o desejo de vingança contra o seu algoz. Sua alma só poderá ser finalmente libertada das dores humanas após superar estas gigantescas barreiras.

Tratando destes temas, obviamente o filme é denso e pesado, como não poderia deixar de ser. O roteiro acerta no clima de suspense ao fazer a narradora dizer à plateia que será morta, e adiar a cena do assassinato por vários minutos, que se tornam cada vez mais intensos pela expectativa gerada. São particularmente emocionantes e doloridos os momentos em que Susie ainda não sabe que morreu, e sai pela cidade em busca de seus pais. Porém mostrar visualmente o que acontece após a morte é sempre um desafio ingrato. Era necessário não cair nos velhos lugares comuns de nuvens e seres vestidos de branco, e nem repetir a experiência de gosto discutível de “Amor Além da Vida”. A solução encontrada é satisfatória: o limbo de Susie reflete seus sonhos, medos e aspirações de menina. Se às vezes resvala no kitsch ou lembra o planetinha de “O Pequeno Príncipe”, tudo está justificado pelo fato do limbo ser uma projeção dela própria. E a cena dos barcos engarrafados se quebrando na praia por si só já é um belo momento mágico.
Além do tema difícil, repleto de sofrimentos e perdas irreparáveis, Spielberg e Jackson ainda tinham de driblar a sempre complicada questão da verossimilhança, ou seja, fazer o público realmente acreditar que é possível uma pessoa morrer e ficar, do outro lado, acompanhando o que acontece por aqui. E nada melhor para resolver questões desta ordem que um elenco competente. Sábia decisão. Além dos já citados Tucci e Saoirse, o elenco é completado por outros nomes de peso que dão conta do recado,como Mark Wahlberg, Rachel Weisz e Susan Sarandon.

Há, contudo, dois senões. O primeiro tem se transformado numa constante nos filmes mais recentes: o excesso de narração em off, como se o diretor não acreditasse na força de suas próprias imagens e se visse na necessidade de “explicar melhor” ao público, verbalmente, o que está acontecendo. Possivelmente seja uma concessão comercial, mas o recurso, pouco cinematográfico, sublinha as origens literárias do projeto. E o segundo é uma visível hesitação nos momentos finais, onde – como reza a tradição dos grandes filmes comerciais norte-americanos – tudo deve ser muito amarrado e explicado, sem dar margem a eventuais interpretações por parte do público. Popularmente falando, é aquele momento em que “o filme parece que não acaba nunca”.

Em se tratando de um projeto Spielberg/Jackson, dois nomes que conhecem tudo de bilheteria, certamente “Um Olhar do Paraíso” busca o grande público e, por isso mesmo, se preocupa sempre em aparar as arestas, em não deixar pontas soltas nem ir demasiadamente fundo nos subtextos. É um estilo. Um custo a ser pago por quem tem a necessidade de cobrir os US$ 65 milhões investidos na produção. Faz parte do jogo.