“VOZES DO MEDO” É DE FUNDIR A CUCA, BICHO!
Por Celso Sabadin.
Ainda tem muita gente que replica a grande falácia que “os streamings têm tudo”, mas as melhores fontes de pesquisa para quem ama ou simplesmente estuda cinema continua sendo mesmo o YouTube e os sites de compartilhamento democrático de conteúdo audiovisual. Os cardápios dos streamings andam cada vez mais medíocres.
Por exemplo, onde – fora da gratuidade da rede – encontraríamos o controverso “Vozes do Medo”, concluído em 1972 e rapidamente picotado e escondido pela ditadura civil-militar empresarial da época? Pois ele está inteirinho, grátis e sem cortes, no YouTube.
“Vozes do Medo” foi um projeto de cinema alternativo coordenado pelo genial Roberto Santos (diretor de “O Grande Momento”), quando era professor de cinema na ECA/USP. Trata-se de um trabalho coletivo realizado por seus amigos, alunos e ex-alunos, como Aloysio Raulino, Plácido de Campos Júnior, Roman Stulbach, Maurice Capovilla, Gianfrancesco Guarnieri, Aloysio Raulino, Hélio Leite de Barros, Mamoru Miyao, Adilson Bonini, Augusto Correa, Ruy Perotti Barbosa e Cyro del Neto.
Muitas vezes se refere a “Vozes do Medo” como sendo um filme em episódios, o que não deixa de ser verdade, mas passa uma ideia muito simplificada do longa. Ele é bem mais que isso, apresentando uma estrutura mais parecida com a de uma revista (teatral ou impressa, tanto faz), que fragmenta a narrativa e mistura suas histórias com grande desenvoltura.
Em um momento, somos levados para a Ladeira da Memória, em São Paulo – com seus degraus pintados de verde e amarelo – transformada em um grande jogo de tabuleiro no qual as peças são pessoas de verdade vestindo azul. Corta rapidamente para um rapaz rico (na época se falava playboy) que, sem saber o que fazer com o corpo de um homem que atropelou e matou, decide levá-lo junto para os restaurantes e festas que frequenta.
E assim sucessivamente “Vozes do Medo” vai entremeando suas tramas/esquetes e misturando suas técnicas (animação, colagem, alterações de velocidade, etc.) com aquela típica amálgama de geleia geral tropicalista dos anos 70 que “fundia a cuca” (para usar uma expressão da época) da galera e escandalizava os conservadores. Tudo com muitas doses de crítica social, claro, senão não vale.
É um verdadeiro vale tudo cinematográfico com a cara do seu período: tem hippies, cenas feitas com caleidoscópio, cinismo, sarcasmo, fragmentação, flautas andinas e música indiana na trilha musical, os gritos e berros ensandecidos que marcaram o Cinema Marginal, grandes textos em off (como sempre), um clima intenso de revolta juvenil. Consequentemente, é uma obra datada, que precisa ser vista e interpretada com os olhos e o coração daquele terrível momento da vida brasileira. É a chamada estética do conflito e do inconformismo.
“Vozes do Medo” marca também uma das passagens mais ridículas da censura brasileira, como se a censura em si já não fosse ridícula o suficiente. O então ministro da justiça, Alfredo Buzaid, foi irredutível ao proibir o filme e confiscar suas cópias e negativos porque ele estava convencido que os cineastas haviam colocado escutas clandestinas em sua casa. Motivo, alegado pelo próprio ministro: os diálogos do segmento “A Santa Ceia”, sobre uma terrível briga familiar, reproduzia fielmente (ainda segundo o ministro), as brigas que ele tinha em casa com a sua própria família.
No elenco, Antonio Pitanga, Joana Fomm, Sérgio Mamberti, Cláudio Mamberti. Selma Egrei, Ariclê Perez, Clarice Piovesan, Julia Miranda, Ione Borges e Myrna Lodispoto, entre outros.
Tem o filme na íntegra, em cópia marromenos, em www.youtube.com/watch?v=uz6d0YClCsk


