“ZAMA”, INSANO E DESCONEXO, COMO O PERÍODO QUE RETRATA.
Por Celso Sabadin.
Final do século 18. Don Diego de Zama (Daniel Gimenez Cacho) é o Assessor Jurídico dos conquistadores espanhóis estabelecidos em algum lugar na América do Sul. Alguém que ajuda a Coroa a criar bases legais para aumentar os impostos, conforme diz um dos personagens. Exaurido pela falta de estrutura do lugar e com saudades da família, Zama espera pacientemente por uma carta do governador local que autorize seu retorno para casa. Sua situação, que não é das mais confortáveis, piora ainda mais quando o governador fica sabendo que Fernandez, um dos funcionários de Zama, está cometendo um “crime” imperdoável: escrever um livro.
A sinopse acima pode até dar a impressão que “Zama” é um filme convencional. Pode esquecer. A sempre super valorizada diretora argentina Lucrécia Martel (de “O Pântano”) traça aqui um painel desconexo e fragmentado (o que não é exatamente um problema, mas apenas uma constatação) das loucuras que permeiam o domínio espanhol na região.
Furtos rápidos cometidos por ladrões desconhecidos, frases repetidas, desmandos, personagens que surgem e desaparecem quase que etereamente como entidades fantasmagóricas, doses de críticas contra o poder e contra o vazio da vaidade… e boleros na trilha sonora. Se a intenção da diretora foi potencializar o desequilíbrio, o inusitado e a insanidade da colonização, funcionou: trata-se de um filme insano e desequilibrado. Não exatamente inusitado porque Werner Herzog já explorou bastante este tema – e este estilo – nos filmes que realizou na América Latina nos anos 1970 e 80. Claramente Martel bebe aqui na fonte de Herzog, ainda que sem a mesma perspicácia sarcástica do alemão.
Para absorver melhor o filme, recomenda-se não tentar entendê-lo. Afinal, é uma obra sobre o caos, e nele se apoia para construir sua narrativa. Melhor se deixar levar pelas imagens bem construídas e pelo trabalho (tanto visual como auditivo) desenvolvido em dois planos com o qual a cineasta nos brinda.
Baseado no livro homônimo do argentino Antonio di Benedetto, “Zama” foi produzido por uma verdadeira força-tarefa multinacional que inclui Argentina, Brasil, Espanha, República Dominicana, França, Holanda, México, Suíça, Estados Unidos, Portugal e Líbano.
Nos 20 minutos finais, o espectador é brindado pela presença sempre marcante de Matheus Nachtergale no elenco. A estreia é em 29 de março.

