8º CINE BH: ASSAYAS PROPÕE MERGULHO NOS ANOS 70.

Ah, as deliciosas utopias libertárias do cinema francês! Os saborosos sonhos de uma juventude que ansiava por um mundo sem fronteiras, eletricidade, nem água encanada. Parte destes sonhos juvenis formam o eixo narrativo principal de ´”Água Fria”, que o francês Olivier Assayas escreveu e dirigiu em 1994, e que faz parte da retrospectiva que o cineasta ganhou aqui na 8ª Mostra Cine BH.

A trama gira em torno do casal adolescente Christine (Virginie Ledoyen, atualmente em cartaz no filme “Um Novo Dueto”) e Gilles (o então estreante Cyprien Fouquet). Ambos são nascidos em famílias burguesas, nunca passaram necessidades na vida, mas estão no limite da marginalidade. Enquanto Gilles rouba discos em lojas e não tem o menor interesse pelos estudos, Christine prepara um plano de fuga para sair do jugo de sua mãe e do seu padrasto, e ir morar numa comunidade de artistas. Na França dos anos 70 (sim, é um filme de época), ainda sentindo de perto as marcas do icônico e inesquecível 1968, o choque de gerações é agudo e premente, sempre em busca de soluções urgentes e radicais. Belas, oníricas, mas talvez impossíveis.

Assayas ressalta o clima sufocante dos protagonistas fechando claustrofobicamente os enquadramentos e fazendo sua câmera deslizar solta, ágil e trepidantemente pelo universo de Gilles e Christine. Os closes são generosos, reveladores, invasivos. A beleza provocante de Virginie Ledoyen (na época com 18 anos) chega a ser hipnótica. E, principalmente para os nascidos nos anos 50 (como o diretor e eu), a trilha sonora é uma viagem inebriante pelos libertários anos 70.