8º CINE BH: PASSADO E PRESENTE SE ENCONTRAM EM DOIS BELÍSSIMOS FILMES.

Separados por 60 anos, o clássico “Romance na Itália”, do romano Roberto Rossellini, e o comercialmente inédito “Castanha”, do gaúcho Davi Pretto, expõem, cada qual à sua maneira, as mágicas ferramentas que o cinema tem para mexer e remexer com as mais diversas sensibilidades humanas.
Os dois filmes se destacaram nesta sexta-feira (17) na 8ª Mostra CineBH.

ROMANCE NA ITÁLIA

Itália, 1954. O olhar do mestre Roberto Rossellini transporta para a tela a sempre triste e recorrente história do ocaso de um amor. A bordo de um luxuoso Rolls Royce, o impávido casal britânico Alex (George Sanders) e Katherine (Ingrid Bergman) chega a Nápoles para vender um imóvel da família. Deveria ser uma transação simples e rápida. Porém, a viagem – transformadora como só mesmo as viagens podem ser – atira no colo do casal uma dura realidade: pela primeira vez em muitos anos, ambos têm apenas um ao outro como companhia. E estão odiando. Escancara-se diante deles o vazio da solidão a dois que já existia, mas não era visível. Ou encarado. Abre-se entre o casal um oceano de diferenças materializado no filme pelo Mar Tirreno, que separa Nápoles da Ilha de Capri, que distancia Alex de Katherine.

O filme é “Romance na Itália”, exibido aqui no 8º Cine BH numa belíssima cópia em DCP restaurada pela Cinemateca de Bologna e rebatizado no evento como “Viagem à Itália”. Mais que uma viagem à Itália, é uma viagem a Nápoles. Qual a diferença? Mais autêntica, mais primitiva, supostamente mais romântica e certamente mais carente que o restante da Itália, Nápoles proporciona o contraponto perfeito ao jogo de aparências que, até o momento, era o último esteio que sustentava a fachada aparentemente intocada do casal em crise. As máscaras caem com mais facilidade em Nápoles. Principalmente depois que ambos visitam Pompeia, em ruínas, tal e qual seu casamento. Corpos emergindo da terra “fossilizados” artificialmente pelo gesso que se encarregará de expô-los à visitação pública transformam-se em metáfora cruel demais para ser suportada por Katherine e Alex. A crise explode.

Porém, estamos na Itália (mais que isso, em Nápoles), onde a religiosidade do povo é capaz de tudo. Até de, literalmente, milagres. O cenário ideal para Rossellini explorar toda a sua veia neorrealista e, como poucos, compor a amálgama mágica que mistura cenas ficcionais com documentais criando um novo momento cinematográfico, tão único quanto indivisível. Ninguém é mago por acaso.

Após o filme, dentro da programação do 8º Cine BH, houve uma palestra do crítico irlandês de cinema Tag Gallagher.

CASTANHA

Um ator interpretando ele mesmo, e contando no filme a sua própria história resulta numa ficção ou num documentário? E se este ator, além de interpretar a si próprio, também participar do roteiro? E mais: se a mulher escolhida para fazer o papel da mãe do ator que interpreta a si mesmo for ninguém menos que a própria mãe do ator, na vida real, que faz o seu próprio papel, isso significa que estaremos vendo uma ficção ou um documentário? Todas estas perguntas se encaminham para a mesma resposta: definitivamente, separar ficção de documentário está cada vez mais inútil.

A importância de se saber o quanto há de realidade e o quanto há de encenação em “Castanha”, do estreante em longas Davi Pretto, é minúscula diante da belíssima sensibilidade do filme, que independe de rótulos.
João Carlos Castanha é um ator que vive nos subúrbios de Porto Alegre. Mora com sua mãe, Celina, e tira seu sustento apresentando shows num clube gay, além de atuar em teatro alternativo. Tudo isso é verdade na vida real, da mesma forma como também é o argumento básico do filme. Castanha e sua mãe protagonizam a si próprios. O cotidiano dos protagonistas, denso e duro, forma a linha narrativa de “Castanha”. Lenta e silenciosamente, vamos conhecendo o universo desta dupla filho/mãe que aos poucos vai introduzindo outros coadjuvantes igualmente marginalizados. Um ex-marido asilado, um sobrinho viciado, um namorado, colegas de trabalho. Entre shows de transformistas, visitas ao posto de saúde e passeios noturnos, forma-se um painel hiper realista deste pungente mundo, digamos, “castanheano”.

Deste muito pouco, Davi Pretto extrai quase tudo. Os enquadramentos são preciosos, a luz é de uma poética entristecida que faz parecer que até as cenas diurnas são noturnas, como que sublinhando o anoitecer da alma. E as interpretações, de tão naturalistas, talvez nem devam ser chamadas com este nome: interpretações. Por mais que o papel de Castanha, vivido por Castanha, seja milimetricamente talhado para se constituir por si só num papador de prêmios de Melhor Ator em qualquer festival do mundo, quem escancara mesmo os portões da emoção é sua mãe, Celina. Que, por sinal, também é Castanha. Que mulher é essa? Uma avó incapaz de condenar o próprio neto, por mais criminoso que ele possa ser, por priorizar sem censura e com ternura seus laços de sangue. E que ainda telefona para prevenir os demais dos prováveis estragos que este seu cosanguíneo certamente fará. Uma mulher que personifica carinhosamente o famoso “minha mãe não dorme enquanto eu não chegar” da velha canção. Um coração em forma de mãe, avó e ex-esposa. E uma interpretação, com aspas ou não, nunca menos que primorosa.

Exibido em vários festivais pelo Brasil e pelo mundo (inclusive Berlim), onde vem colecionando prêmios, “Castanha” é uma preciosidade.