ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA – E PÕE COMPLETA NISSO – DO FICA 2015.

Sob licensa do site Cinequanon.art.br, o Planeta Tela publica a partir de hoje a cobertura completa do FICA 2015 – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, realizada pelo crítico e jornalista Cid Nader, diretamente de Goiás. Acompanhe.

Por Cid Nader

Goiás, quarta-feira (12/08/2015)

Antes de iniciar essa minha segunda empreitada pelo FICA, uma questão voltou a circular pela cabeça (coimo já havia acontecido na primeira vez): de que modo, um crítico de cinema, num veículo absolutamente dedicado à crítica de cinema, pode abordar as produções, num evento que se dedica muito mais especificamente ao meio-ambiente, fazendo dos filmes peças de engajamento, de vaticinação, validação e propaganda (tudo justo e necessário, que fique claro), para referendar e “ilustrar” as discussões? É complexo pensar nisso se a estrutura pressentida pelo histórico do evento o indica como “local” que prioriza muito maios o tema do que o cinema com arte técnica (ou estética); é complexo pensar num evento que exibe cinema e o carrega em seu nome, mas onde para se conseguir alcançar filmes com todo o jeito desejável de “filme mesmo” provavelmente dependamos da sorte, do acaso, e não de uma curadoria que priorize esses aspectos.

Pensamentos que precederam o estar aqui, esse momento de 2015, e que se levados a ferro e fogo – sem a constatação in loco do que ocorrerá – demonstrar-me-iam como um tacanho de viseira, que não atenta ás possibilidades de novas curadorias e nem na possibilidade de talvez estarmos em instantes onde encontrar “filmes ecológicos” com mais atenção à estética e às técnicas da arte talvez estarem em mais abundância: já que o tema ampliou e ganhou espaços – interessante lembrar que há cineastas e histórias de trabalhos voltados ao assunto que são absolutamente bom cinema, pelos tempos. Então, um primeiro passo delineia o modo de cobertura que tentarei – se bem que o site não seja dos que veículos que ingressa em coberturas de festivais pensando-os estanques em suas partes , e a partir dessa linha editorial, pensemos sempre na ampliação da observação, na soltura das amarras, como os melhores caminhos de evidenciação do que está acontecendo, aqui ou acolá -: atentar mais aos curtas-metragens da Mostra ABD/GO (não, por acaso, nossa dedicação histórica ao formato, e talvez umas pinceladas sobre os trabalhos da competitiva que se dedicam mais às questões base daqui.

Ontem, dia da chegada à quente, bonita e seca Cidade de Goíás, primeira sessão perdida e a ida à das 18h30, com dois trabalhos (podendo ser considerados limítrofes entre curta e média-metragem):
– o português A Ria por Dentro (de Ana Maria Rodrigues), que nos mostra o ecossistema de um estuarino, onde seres invertebrados são a base da “população”. O filme, pleno de informações cumpre bem sua missão documental-explicativa, revelando como todo aquele ecossistema funciona, suas engrenagens complexas, que se valem dos sedimentos orgânicos (mas utilizando também os inorgânicos, numa certa medida): como se fosse um desses bons programas científicos de televisão dedica-se com muita atenção e boas lentes aos detalhes, às poliquetas, conseguindo sob águas turvas raridades que só se podem conhecidas pela investigação. Traduzir isso para imagens que serão “exportadas aos mortais” é de ser reconhecido, mesmo que a base construtiva já seja de amplo domínio há um bom tempo nos programas de TV. Como cinema, tem seus instantes bastante interessantes se dando na observação do humano no estuário, sempre tomado de cima, com a amplidão dos planos servindo para demonstrar que a interferência da espécie (por vezes predatória, por vezes somente pela subsistência) normalmente é de empreitada com aspecto épico: como sempre o foi para que ele (o humano) se impusesse e manipulasse em eu favor, como sempre foi atentado pelas boas câmeras.
– já o brasileiro Últimos Refúgios: Reserva Biológica de Duas Bocas (de Alexandre Barcelos), surpreende muito pelo excesso de vidas que evidencia, num local do país (Espírito Santo) que para leigos não se imaginaria jamais tanta diversidade. São 30 mil hectares dessa unidade de conservação explorados por câmeras atentas (desde as que filmam ás que fotografam basicamente), onde a toada de filmes ambientais é mantida, mas onde – como sempre, não há como não – a surpresa da descoberta ou da redescoberta permeia os espaços, criando toda a dinâmica narrativa, que se faz o pilar de atração nesses modelos: a partir de um filme como esses, de atenção aos detalhes e boa equação das lentes, a narrativa, o modo clássico de avolumar as informações, faz perceber que i ritmo criado é o principal objetivo a ser alcançado para que a atração do assunto seja completada pelo fluxo. E tome macacos, cobras, passarinhos e urubus surgindo sem parar, ampliando o aspecto de atenção à tela (os espaços, quando arrancados do meio da natureza bruta, sempre chamam a atenção ao todo do quadro, de forma mais “natural”, sem tanto esforço do fotógrafo), e com a qualidade que essas câmeras digitais ágeis possibilitam. Bacana, quando o diretor revela um dispositivo simples e eficiente que contribui demais para a qualidade dos resultados macro: “montamos iscas com o intuito de atrair os bichos mais para próximo das lentes, em ambiente demais fácil captação e mais propício”. Um adendo interessante, para trabalho de força maior no mote.

Dois curtas da ABD ficam para amanhã:Dergo e Sob Nossos Pés.

MOSTRA ABD CINE GOIÁS

Batalha das Máscaras
Direção: Iúri Araújo
Duração: 2min.
País/Ano: Goiânia

Animação de boa qualidade técnica, curta, que traz como tema uma festa folclórica de alguma cidade do Centro-Oeste onde batalha entre mouros e cristãos é o tema. Traços e muitas cores (por vezes esmaecidas, como se fosse opção de pastel… ou seria por conta da projeção? Uma dúvida.), com boa sustentação na movimentação, número de quadros repetidos minimanete para a confecção ganhar seu ritmo ideal, e pouca ousadia, afinal. A questão: é sempre necessária a ousadia, o escape do comum quando se trata de animação em vigor (uma questão que me parece pertinente por conta de certa grita geral dos nossos animadores com um certo descaso da acrítica e autoridades da área – o que é verdade -, mas que por outro lado toca um tema de talvez certo excesso de produções que se repetem em semelhança fazerem parte dessa gama de produções)? Uma resposta: creio sempre que, quando se trata de curta-metragem, ainda mais num espaço tão curto como o desse filme de Iúri Araújo, a busca de algo a mais deveria ser quase obrigatória. Porque, se o trabalho é bem feito (e é), percebê-lo somente como um trecho, faz parecer que havia uma certa disposição no empenho, e só: faz parecer que o esforço necessário que requerem animações ainda não contagiou o diretor.

A Vida de Cada Um
Direção: Vasconcelos Neto
Duração: 11min.
País/Ano: Goiânia

Visto já há uns anos esse curta de Vasconcelos Neto (um da trupe do Perro Loco, festival mitológico da Universidade da Federal de Goiás, que neste 2015 retomou seus caminhos após quatro anos de sumiço), quando era jurado do Goiânia Mostra Curtas, na comparação com a baixa qualidade da produção de lá pareceu bem fácil premiá-lo por alguns aspectos. Revisto bem mais recentemente, no Festival de Anápolis de 2015, uma certeza maior se impôs sobre suas virtudes: o trato do assunto migrante/deslocamento, do tema eterno (da constituição humana) do homem que abandona seu rincão para ter de sobreviver, mantendo aceso o desejo da volta, ganha mais importância a cada revisão, deixando a sensação de um certo abuso estético gratuito de lado, para reforçar (e justamente nisso que pereceria abuso estético no início, que é o deslocamento das lentes para todo o entorno, enquanto a narrativa oral tratava da ”substância”) a sensação que restou desde sempre de melancolia, de trato bastante atento ao ser humano, ao seu depor, ao seu estar antagonizando seu passado.

A proposta fragmentada do diretor, com o tempo, talvez pela comparação com o que se vai notando da produção da região (num Centro-Oeste de produções que buscam demais algum esmero técnico, mas que falham justamente nisso em que tanto apostam, criando, então, um setor da produção local que resulta estéril – mesmo em crescimento, mesmo com gente nova surgindo, ainda restando essa sensação), um tanto pela contemporaneidade dela (algo que adensa, mundialmente), acaba parecendo mais importante atualmente. Criar alguns ambientes visuais despregados do que é relatado, ao fim, a cada revisita, consegue emprestar mais do que “duas sensações” (a da vista e a da audição). As histórias colam mais nas sensações, enquanto o que é visto (mesmo que por vezes parecendo um tanto ingênuo) abastece a retina já com impressões que parecem mais da carga genética acumulada: e essa mistura, reproduz muito do que está acumulado e guardado pelo decorrer dos tempos, como se o filme servisse como estímulo de despejos das nossas entranhas e “inconsciências”.

A Pedra
Direção: Adriana Rodrigues
Duração: 16min.
País/Ano: Goiânia

Um modismo de nossos curtas-metragens – alguns longas, também – atuais está em filmar com planos e “bitolas’ que façam com que histórias pareçam egressas diretas do modelo scope dos clássicos westerns americanos. Para tal, a ideia técnica central está em captar o campo (a natureza) pelo plano amplo), intrometer o elemento animal ali no meio, e retrazer a sensação enraizada em nosso imaginário da fronteira a ser desbravada. Alguns resultados são bonitos, imitando bem o modelo e cabendo adequadamente a algumas regiões mais do que em outras. O Centro-Oeste, de espaços naturais realmente extensos cabe bem à proposta; e também, um tanto pela inundação e angulação do sol (o céu daqui é bastante adequando para preencher trechos das telas como sua proximidade emoldurante e dominadora); e mais um tanto pela “brutalidade” das construções interioranas (adequadas a essa busca).

Posto tal, deu-se razoavelmente bem Adriana Rodrigues nessa investida de aspecto estético, que agrada o olhar e atiça a vontade de querer mais, principalmente para quem não vê tanto curta-metragem . Já para quem tropeça com diversos trabalhos utilizando o estilo há uns bons três anos, algo inquieta: algo de gratuito fica rondando, até porque, quando as lentes vão para dentro do ambiente da cabana, a câmera perde desavergonhadamente a placidez do olhar para interagir meio nervosamente a mais com as atitudes do personagem (e aí me pego diante de um modismo mais antigo – e ruim – que surgiu já há bem mais de uma década, com as câmeras de mão). A história – baseada num conto literário – é bonita: do ser que não quer perder sua simplicidade, que briga internamento com isso – e fica como um bom marco do trabalho, juntamente com alguns dos belos planos westerianos tentados… Mas…

O Preço da Passagem
Direção: Ernesto Rheiboldt , Thomaz Magalhães
Duração: 16min.
País/Ano: Goiânia

O Preço da Passagem poderia ser bom. Até é: mas um pouco só. A ideia de criar uma ficção para reclamar sobre a instituição capitalista agindo sobre a morte, poderia ser boa: mas é antiga e bastante juvenil – e mesmo em se pensando no curta como trabalho de escola, o modo como os dados são vomitados na tela pela “vendedora” são dignos de alguém com treze anis de idade. A câmera subjetiva poderia ser instigadora e incitante: mas não é. Digamos eu os diretores triscaram tais possibilidades, mas ficaram num quase, distante.

Pensar na dor mesclada com o ter de agir, na frieza de alguém trabalho sobre essa dor da morte (alguém tem de, não?), num prevenir para não ser pegos de calças curtas, poderia ser mote a ser mais bem explorado. E a ideia da ousadia (algo a ser tentado nos curtas: repito e repito), sucumbe facilmente à falta de qualidade na captação, onde ângulos são mal escolhidos, o cuidado da luz inexiste – e novamente a ideia das subjetivas como esse ato ousado… Não.

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A Praça Falou Mais Alto
Direção: Ranulfo Alvez
Duração: 19min.
País/Ano: Goiânia

Um filme jamais deveria deixar com que dúvidas morais sobre suas razões se impusessem acima do seu compreender estético: ma minha opinião. Mas, desta vez, incomoda demais a questão abordada (o belo momento oitentista das brigas pelas eleições diretas quase ao final da ditadura militar), indo-se a imagens catadas na internet, para numa edição bem canhestra, acomodada e um tanto receosa demais (algo que se nota até no excesso de necessidade de sempre elucidar por subtítulos quem está em cada imagem mostrada), restar sensação falso bairrista (sobre Goiânia ter sido o berço do movimento – se fosse e se isso fosse trazido somente como um ato bairrista mesmo, nem atrapalharia tanto), intuir que o trabalho possa ser algo bem chapa branda e louvador de um político daqui.. Nem é técnico, nem estético, e me parecei que nem ético.

Quinta-Feira (13/08/2015)

Na dúvida sobre como um veículo de crítica de cinema deveria abordar um festival onde seus filmes normalmente são escolhidos pelo tema social (principalmente na referência ao meio-ambiente), eis que de repente surge esse Guinée: Le Territoire des Oubliés, de Philippe Lafaix (França, 2013), para tirar qualquer ser humano minimamente razoável do chão: com poderoso soco na ponta do queixo, de preferência. Como cinema mesmo, pleno de facilitações (a edição trata de ilustrar com imagens colhidas fora dos momentos vigentes algo captado em outro instante, mas criando a sensação de “ilustração” tatibitati, e não criando fluidez, por exemplo), de equívocos de montagem, com a horripilante mania das TVs francesas de dublar as pessoas (o que realmente entontece e enraivece), e a criação de clima “odsseico” (principalmente tocado pela narração, como se fosse de um programa jornalístico meio sensacionalista – e é evidente que a opção do diretor era mesmo a de criar clima diferente e espantoso, mas…) que tenta fazer o decorrer das situações mais tensos e perigosos ainda do eu as próprias imagens e situações já dariam conta.

Como constatação de teor sociológico/filosófico, o filme é daqueles que nos faz pensar o tempo todo sobre as razões de nossas queixas nesse mundo nosso nada ruim na comparação com o que nos é apresentado pelo documentário. É daqueles que nos faz evocar a antítese entre o viver e o sobrevier (entre o pão e o circo, sendo simplista): num primeiro instante incitando a querer abandonar nosso “bem estar”, nossas artes, por vergonha do que se passa com os da mesma espécie ali do outro lado do oceano. Para então, já um tanto menos acachapados pelo impacto de tudo que acontece ali na tela, pensarmos que a beleza do viver está aí mesmo: nessa capacidade de criar, de desejar belezas, e de também, de alguma maneira, podermos ser os que (pela necessidade de querermos a vida mais complexa, mais plena de nuances) não se conformarão e poderão agir sobre o sofrimento desses que estão tão à beira do caos que lhes falta força para serem por si.

Tudo acontece em uma Guiné que parece apocalíptica no filme, explorada por poderosos que se apoderam de sua riqueza (pais rico em diamantes e minérios), e que deixaram com que uma economia colapsada praticamente excluísse a população de seus direito mínimos de sobrevivência. Como dito acima, agir em seu favor nos faz pensar nas razões de nutrirmos algumas “belezas”: e lá se vê as coisas ainda conseguindo acontecer por algumas ações humanitárias (há UNICEF, há médicos e farmacêuticos que agem por contra própria…); e mesmo diante do inferno (num país congestionado, que depende de velhos táxis e caminhões como meio de transporte por estradas e ruas enlameadas e sem asfalto – o que não dizer da saúde pública diante desse espectro), nota-se as crianças usando camisas de times de futebol; se vê pessoas ainda muito bonitas…

Uma Guiné que, voltando ao chão, esquecendo de nossas “belezas” e ideais, nos surge pelo filme como o local onde se há de levar remédios que duração somente 24 horas com pouca refrigeração, de uma cidade a outra, num táxi com nove passageiros; que tem suas cidades absolutamente congestionados; que vê uma grávida em estado grave sendo procuradas entre aldeias pela única ambulância de uma outra cidade a duas horas de distancia; crianças das mais variadas idades trabalhando como carregadoras ou sendo exploradas por um homem que diz lhes ensinar o ofício da marcenaria; caminhões soviéticos tentando sobreviver nas estradas.. E conformismo dos que lá estão sob tais condições: plácidos porque têm de sobreviver e não imaginam que não deva ser assim. Num filme que derruba e faz entender a razão e importância de existir, depois que nos recuperamos do sopapo.

Rascunhos da Bíblia é mais um curta que ficará para um tantinho à frente na cobertura.

MOSTRA ABD CINE GOIÁS

Porfírio
Direção: Henrique Borela
Duração: 5min.
País/Ano: Goiânia

O trabalho de Henrique Borela constitui algo que pode ser questionado a mais no que refere ao que é o “trabalho de cinema”. Fácil comprar a ideia do curta como resultado de trabalho de pesquisa que, diante da “riqueza” do material sedutor ao diretor, bastaria praticamente por si só (em duas frentes de utilização: uma, por escrita de acompanhamento do momento dos fatos – o que na tela, inserido por subtítulos, pode provocar dúvidas sobre a validade, já que a banda sonora também é ocupada por outros sons, passando a sensação de pouca razão prática ou até estética, e mais de exercício -; a outra pela acumulação de fotos da reportagem de uma revista como o prosseguimento visual pretendido).

Tanto quanto fácil duvidar das razões indo para além da “função cinema” (com suas necessidades de utilizações narrativas) para estabelecer-se mais sobre um campo de tentativa de criar marca de estilo… O curta conta a história da prisão e desparecimento de José Porfírio de Souza – líder camponês e político do povoado de Riachão, MA -, no momento em que é levado a Brasília paar em seguida desaparecer. O filme usa as imagens e o acompanhamento de jornalista que narra os instantes por escrita, in loco. É potencialmente forte e atrativo o instante – como alguns outros desse momento histórico do Brasil -, e, como disse, sedutor pelo material todo “à mão” (sabendo da pesquisa para se chegar a ele). Mas ainda bate a dúvida sobre a validade das opções de construção… Para matutar um tanto, ainda.

Enquanto a Família Dorme
Direção: Getúlio Ribeiro
Duração: 19min.
País/Ano: Goiânia

Getúlio Ribeiro parece estar se tornando um dos novos queridinhos do cinema goiano: até que ponto isso é bom ou ruim, somente seus modo e comportamento dirão, com o prosseguir, com o que virá. É incrível essa necessidade de se criarem “nortes” em qualquer setor da vida humana (quando no cinema regional, então…). E fica sempre a dúvida sobre se esse norte (se humano) não se deixará ser seduzido facilmente: Getúlio, pelo que vejo aqui e acolá, parece ter cabeça boa: daqueles que não provavelmente não se deixarão ser seduzidos . Mas faz um tipo de cinema que adoça justamente o gosto de um setor do cinema goiano que é de muita voz, de muita exportação… Não sei o que isso conta ser dito numa crítica, mas para quem é de fora e acompanha as reações (e principalmente as pré-reações) numa sala de cinema, durante uma mostra local, dentro de um festival, fica impossível não atentar ao “barulho” e oba-oba.

Desta vez, surgindo com um filme de gênero (de espanto, de pouco contar e muito deixar que as sensações e intuições interiores do espectador reajam ao que é formado pelo estilo já secularmente), novamente espanta pela precisão executada nas partes do trabalho. Há muito rigor envolvendo cada setor: desde as captações, à aglutinação desses instantes na montagem, passando pelo ambiente em sutil transformação a cada instante na tela e mesmo no campo de como arrancar as atuações pretendidas – afora os elementos cenográficos, que tanto externa como internamente parecem de precisão cirúrgica. Há a certeza de que existe um diretor ali que conhece do seu campo de trabalho, principalmente quando se nota as situações sendo “observadas” cada vez por um ângulo diferente, que se restringe em poucos espaços, mas que pelo poder de variação das angulações intromete cada instante em um novo universo.

Tecnicamente, Getúlio parece ser mesmo uma bela novidade surgindo. O fato de agir sobre um “gênero” talvez lhe facilite deixar diversas pontas soltas, a desnecessidade de contar o que se passa: e talvez aí reste um senão do filme, pois nunca se sabe se há a certeza de que tal desapego de fechar esquemas se deu o tempo todo como opção, ou se a ideia montada na cabeça dele não conseguiu seus reais caminhos e almejos em tela. O que talvez explique um tanto a sensação de esticada a mais nas cenas, ou na duração delas (durante o transcorrer tive a sensação de que via um filme mais longo do que o prometido), numa tentativa de, por entre as desamarras, criar-se mais subsídios, mais informações em quantidade para “facilitar” um pouco a vida do espectador.

Tudo Que Eu Preciso
Direção: Wadson Alvim
Duração: 13min.
País/Ano: Goiânia

Tudo Que Eu Preciso é daquele modelo de curtas-metragens que vemos muito por ai, que se amparam num quase nada acontecendo em tela, pois sua razão principal estaria no mote, na essência triste de algum personagem em estado de perda e desilusão. São normalmente trabalhos que desapegam do fluxo, atendo-se mais ao não gerar fluxo (por vezes, inclusive, com o bloqueio da dinâmica narrativa), e que têm, portanto, para além do clima de melancolia, de apostar no quadro, nos elementos que o preencherão, nas opções dos desenhos de cena que serão esquadrinhados pelas lentes (normalmente mais plácidas do que o natural)… São trabalhos, em suma, que devem apostar demais no rigor, pois dependerão de sua técnica para resistirem na retina do que não foi ao cinema “somente” para se emocionar.

O que Wadson Alvim conseguiu em seu curta parece mais mimetizar o modelo. Pareceu mais frágil (nas buscas dessas soluções técnicas e estéticas), e menos dolorido nas sensações de dor tentadas emanadas. Um modelo correto, mas sem vida própria.

Ainda Existe
Direção: Pedro Diniz
Duração: 15min.
País/Ano: Goiânia

Para quem anda pelas bandas goianas como tenho andado ultimamente, ver a um documentário usando o fim do carro de boi como o mote parece ser mais atraente. Creio ter visto nos últimos dois anos já quatro ou cinco docs usando o assunto: o que pode remeter a pensar no Centro-Oeste como região extremamente saudosista, ou nos que ingressam no cinema como um tanto acomodados na busca de assuntos. Obviamente que cada um deles tem seu valor, sua característica, e para não ser injusto, esse Ainda Existe, de Pedro Diniz, apesar de ser muito comum nos dados narrados por quem passa diante da tela, nas histórias contadas, nas infindáveis manifestações de saudades dos tempos passados, e até na cantilena que se repete para falar da diferença entre um cantar diferente de carro para carro (sim, rodas de carros de bois cantam), carrega uma vantagem enorme na qualidade das imagens.

Bem: para quem tanto brada sobre “cinema ser a arte das imagens e tal”, o fatio de um documentário ter qualidade nas suas não deveria ser motivo de júbilo? Perguntariam alguns para mim… “Sim!!”, respondo. E se falo um pouco do curta aqui é justamente porque pareceu mais bem tratado nas captações, com muita atenção à luz (externa, de bem mais difícil domínio às lentes), principalmente, o que empresta características bastante atraentes aos momentos de aventura dos carros pelas estradas e rios. E algumas tomadas amplas resultaram tão belas – belas mesmo – que ficou o desejo particular de vê-las tomadas por aquelas típicas dos western (daqueles scope em que se pensa estar vendo a curva da Terra à distância, enquanto natureza, homens e bichos povoam as paisagens um tanto abaixo da linha do horizonte).

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Cabocla
Direção: Pedro Otto
Duração: 15min.
País/Ano: Goiânia

Pedro Otto parece ter feito esse curta como ação paralela de um projeto de reabilitação de presidiárias (Projeto Cabocla – Bordando a Cidadania). Se tem esse valor social como razão para existir, não se pode dizer o mesmo dele como obra mais completa de cinema. É falho nas premissas narrativas que deveriam levar às continuidades dos atos; é impreciso no salto de uma parte à outra; aposta na atuação de gente mais famosa (talvez uma maneira se atrair atenções para a ação social); e bastante equivocado nas tomadas internas (há um plano e outro invertido na porta da prisão que surge muito estranho). Mas, incrivelmente, nas filmagens externas vai bem, principalmente porque realça as saudades que tomam as saudades da cabocla quanto ao Araguaia: há ao menos a bela compreensão da beleza do rio e de sua natureza, com suas gentes ribeirinhas… E a ação social… Mas cinema mesmo? A valer…

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Em Terras Estrangeiras
Direção: Absair Weston
Duração: 18min.
País/Ano: Anápolis

Acompanhar a carreira teimosa e insistente de Absair Weston desde os primeiros instantes de seus filmes sendo exibidos no Festival de Anápolis (cidade onde vive e para onde, com certeza, imaginou os trabalhos estreando – talvez ainda sem pensar em atingir outras plagas) gera particular sensação de alegria, satisfação meio brincalhona. Sujeito falante e obstinado (e como são necessárias na vida pessoas que tocam suas funções ou anseios com a vibração da obstinação, que após regrada com certeza renderá frutos mais equilibrados – e que mesmo não regrada, renderá… sendo que isso por si só é de extrema importância). Dando cabeçadas, ou não, excedendo parâmetros de bom senso, ou não, o que mais marca nessa sua obstinação é que sempre pareceu mesmo muito confiante no que anseia, e sempre realizando um novo curta em espaço de tempo que nem se imaginaria razoável para quem vagueia por padrões e regras. Errou, continuará errando (porque é mirabolante em suas ideias), e começa a acertar, com essa sua rara compreensão, velocidade e imaginação.

E eis que estamos diante de Em Terras Estrangeiras. E eis que um de seus inúmeros roteiros (ele acredita mais do que deveria no poder dos roteiros) finalmente ganha o acompanhamento mais contido/correto das lentes (enquanto mais elaborado tecnicamente, na exploração mais rara dos ângulos, na criação de quadros que falam do filme mais do que palavra – o que é justo para essa arte –, com uns planos que chegam a causar alegria pelas velas execuções), quando a imaginação das cenas pensadas e desenhadas anteriormente conseguem ser refletidas na tela como sempre deve ser na cabeça de quem as imaginou. Contando com a fotografia de Matheus Leandro Amorim (também cineasta da cidade de Anápolis, um dos adotados da “casa Weston” para poder desenvolver seus trabalhos e que até venceu o festival de lá com o curta Bilhete: e em que particularmente aposto como um baita dum fotógrafo, se ele assim desejar), as ideias de Absair preenchem a tela com acertos visuais que tratam de criar todo o ritmo desejado para o curta. O andamento ditado pelos quadros, pela edição do obtido em campo, o fluxo, são extremamente dependentes do que é visto: ainda mais num filme que praticamente abdica da palavra. E tal andamento cria na sala de cinema ambiente de “capturação” do espectador.

Ainda distante de ser só acerto, ainda um tanto capenga nas cenas e elaborações para alguns dos ambientes internos, o filme explode na tela quando nos ambientes e sequências em espaço aberto. Mesmo sendo o melhor trabalho de Absair, ainda há campo a se percorrer: prum diretor também que aposta muito nas atuações, um detalhe a mais, um tanto a mais de justeza, um tanto menos de expressões de alguns protagonistas. Mas, no final das contas, percebendo uma carreira obstinada em avanço determinado, Em Terras Estrangeiras é um belo de um refresco esperançoso para região que insiste demais em algumas firulas (como acontece em boa parte do cinema do Centro-Oeste). Tudo, sem esquecer que há um fator surpresa matador.

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