BRASÍLIA 2012: MOMENTOS DE RARA BELEZA EM “ESSE AMOR QUE NOS CONSOME”.
Terminaram ontem (23/09) as sessões dos filmes no Teatro Nacional. Brasília está quase chegando ao fim.
MOSTRA COMPETITIVA DOCUMENTÁRTIO – CURTA
A Onda Traz, o Vento Leva, de Gabriel Mascaro. Documentário, cor, digital, 24min47, PE, 2012.
Gabriel Mascaro repete em A Onda Traz, o Vento Leva um modo de observação que tem até se tornado meio padrão (normalmente para o lado ruim da coisa) no mundo dos curtas-metragens documentais: que consiste em apontar as lentes para alguma figura ou entidade que serão alvo da atenção do filme, deixando que seu cotidiano fale por si só sobre o que, diretor e obra, querem contar ao espectador. Mas, novamente – e de modo evidentemente mais amadurecido (é notável o quanto o diretor tem crescido) – ele surpreende, fugindo um tanto das possibilidades que tal modelo narrativo oferece (que reside, por vezes, um tanto a mais no deixar demais que a fluência natural dos fatos se incumba da função que deveria ser mais específica da montagem), para, como se fosse algo que tenta simbiose, trabalhar na mesma linha de sensorialidade que permite o trânsito cotidiano,pela vida, de alguém que é surdo.
A figura de Rodrigo (o retratado) já é por si só rara, quando se pensa nas pessoas em sua condição como seres amargurados, entristecidos, que vivem isolados em seus núcleos particulares: ele vive (como todos eles vivem, creiam) de verdade, com amores e tesão motivando-o, com trabalho (aliás, bastante boas a as cenas tomadas em seu ofício – que é o de instalador de som “!!!” em automóveis) fixo, necessidades de diversão e dança, uma filha para criar (reclama da ex-esposa que o estaria esfalfando financeiramente) e muitas cositas mais. Gabriel, notando a possibilidade de transitar pelo seu mundo, ao invés de “somente” permitir que a naturalidade falasse por si só (e isso num trabalho que optou por esse viés do tempo ocorrendo como o que delinearia a forma e a velocidade da narrativa), recriou e reorganizou as situações na edição, deixando sim que o trabalho soasse natural como o é de verdade, mas aproveitando-se bastante das nuances e variedade que o rapaz empregava em cada situação na qual foi observado.
Raro, dentro de um momento em que similares (alguns bem bons, outros somente como exercício de imitação de estilo) aproveitam-se pouco das possibilidades necessárias que fazem do cinema arte dinâmica: mesmo quando a observação é de paridade com o ritmo ditado.
MOSTRA COMPETITIVA DOCUMENTÁRIO – LONGA
Elena, de Petra Costa. Documentário, cor, digital, 82min, SP/MG, 2012.
Bem complexo falar de um longa como é esse de Petra Costa: e creio que seria injusto me estender demais sobre analisá-lo nesse instante em que ando com febre e tal (me perdoe quem for ler, mas creio ser necessário explicar a razão de um não estender nesse instante – fui escrevendo os filme na ordem que surgiam, e agora, no final, a coisa está bem complexa aqui).
Mas deixo as impressões mais afloradas: muito belo no modo de composição, com sua infinidade de imagens de arquivos (o que denota bom poder de vida da família da diretora) bem filmadas, e montagem que emaranhou por boa parte momentos poéticos e de narrações entristecidas; no mesmo terreno, estendido demais, como se a diretora não soubesse certamente qual deveria ser a melhor opção para o momento do corte decisivo; suspeito de trabalhos que desnudam situações tão drásticas e particulares como acontece em Elena, pois me resta por todo o tempo a sensação de que quem confecciona está meio que traindo intimidades que não só suas, ou por exibicionismo ou como necessidade de expurgação (sendo que ambas as coisas não coadunam com cinema sério); ao mesmo tempo o filme não permite que sejamos tão duros com ele como seríamos em outras situações (e essa é uma questão que está enclausurada aqui dentro de mim, talvez por conta do estado febril que não permite refrescá-la e trabalhá-la).
A diretora parecia alguém que ainda sofre demais quando apresentou o trabalho no palco aqui de Brasília, e me pareceu estranho alguém conseguir trabalhar de forma tão poética sobre passados tão a serem esquecidos: e se foi mesmo caso de tentativa de expurgação, tiro o chapéu para a “frieza” conseguida na hora de editá-lo.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – ANIMAÇÃO
Destimação, de Ricardo de Podestá. Animação, cor, digital, 13min, GO, 2012.
Feita no 2D mais básico – o do traço (pode ser ponta de pena, lápis, caneta, pincel…) sobre papel -, com variações de PB e cores pastel propositalmente desbotadas, Ricardo de Podestá fez sua animação dentro de parâmetros interessantes para o modelo. Um tanto (só um tantinho, na realidade) ao contrário do que se faz nas animações norte-americanas (e destaque-se que muitas delas muito boas de ideia além da evidente e qualidade técnica), a personagem fêmea (ou outra ave qualquer de traço indefinido que grite tal qual) resolve que tem de mandar o papagainho da gaiola para a vida: e intua-se aí que, ou faz isso porque aquele atrapalha a pasmaceira dela e do marido hipnotizados pela televisão, ou como a metáfora da “genitora postiça” que tem de ver seu filho/bichinho de estimação ganhando a vida fora do lar natal – e tome situações inusitadas para cumprir essa missão. Um tanto ao contrário… os desenhos são mais sujos e de menos valor atrativo para quem se interessa por personagens fru-fru: ponto a favor. Um tanto mais ao contrário, nota-se nos créditos finais que tem muito da mão dele (o diretor) em quase todos os setores creditáveis do trabalho.
Que roda bem, atrai pela dinâmica quase histérica (apesar de mostra ao final uma espécie de redenção em busca da paz e do carinho), tem muito valor nas opções de movimento que imitam tomadas com câmera que estaria fazendo movimentos fora do padrão, com focos e desfoques como se fossem equívocos de quem filma, e com desvendamento dos ambientes (tanto internos quanto externos) como se a observação tivesse de ser detalhada para revelar ao espectador a riqueza nos detalhes e recantos, para além da suposta poluição que se nota pelo olhar mais superficial. E é sempre muito bacana constatar como se fazem animações boas por aqui: e com evidentes poucos recursos para tal.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – CURTA
Menino Peixe, de Eva Randolph. Ficção, cor, 35mm, 17min, RJ, 2012.
Eva Randolph é outra diretora rara, de produção não tão apressada, e que surpreende sempre quando apresenta um novo trabalho. Menino Peixe é tremendo em sua concisão de atos, na intimidade gerada pelas opções de takes, no espaço onírico criado por sutilezas de iluminação, no evidenciamento dos temores que brotam de modo único nas mentes infantis. Para contar sobre a expectativa que uma mudança drástica (e drástica nas questões que remetem à perda iminente dos poderes de rei/rainha do lar, mas que também são de caráter feliz pela aproximação de um “milagre”) como a gravidez da mãe impacta sobre uma menininha, o curta acabou por se valer, além dos grandes aspectos técnicos que geraram estética prática ao seu andamento, de uma rara interação entre mãe e filha, fazendo pressupor a garotinha como um fenômeno.
Eva, notando a qualidade de quem tinha à mão, criou mais clima ainda do que as variações nas captações e na ambiência gerada pelas variações de iluminação já se incumbiam de fazer desde o início, e apostou forte no olhar e nas expressões da garotinha, além de gerar potência lúdica no contato dela com a mãe (os momentos em que ambas estão juntos são belos). E o correr da história, quando o medo se estabelece ante possibilidades de um novo irmão que está para nascer, sem alarde ou pirotecnias desnecessárias, fazem notar domínio amplo de onde queria chegar, a partir da compreensão do quanto toda a situação elucidava um momento raro na vida de alguém que ainda é tão novo e suscetível, na vida. Fazer filmes tentado recriar a riqueza e as sensações que explodem na mente infantil requer segurança e compreensão do quanto é possível se ultrapassar uma fronteira tênue, resultando em queda num terreno de aspectos caricaturais. A diretora soube (e sabe, é evidente isso) como evitar a armadilha: e com procedimentos de cinema, basicamente.
MOSTRA COMPETITIVA FICÇÃO – LONGA
Esse Amor que Nos Consome, de Allan Ribeiro. Ficção, cor, digital, 80min, RJ, 2012.
Se é botando observar carinhoso a recantos do Rio de Janeiro que Allan Ribeiro imagina criar campo de trânsito onde seus personagens (reais) viverão, amarão, dançarão, talvez seja necessário reforçar que ele é um dos diretores de cinema mais capacitados para tal. O olhar dele – que até hoje vivera pelo mundo dos curtas-metragens – sobre sua cidade, por espaços que nem sempre são os de padrão “turístico/mitológico”, entende-a como terra aonde sobrevivem pessoas de verdade, seres humanos que não são moldes do estereótipo que buscam o estrangeiros quando anseiam nela estar; entende-a como possível de ser discursada e poetizada pela placidez que se instala num final de semana, quando as portas de comércios estão fechadas e outras vidas assomam às sensações – sem que o mar ou a montanha sejam os motivos das observações; compreende-a como raros o conseguem na existência de seus todos os seres (as pessoas de seus filmes não precisam ser brancas e saradas artificialmente, nem negras que abastecem o desejo imaginador do que vem de fora: podem ostentar fortemente na face cores outras, de matizes intermediárias – podem ser “somente” brancas ou negras, também -, como podem ter corpos moldados pelo que o trabalho determina: mas o mais curioso é que “devem” ter queda por qualquer setor relativo às artes).
Allan já havia iniciado esse seu longa pouco tempo atrás: literalmente, na existência do Ensaio de Cinema (onde inicia o acompanhamento a Gatto Larsen e Rubens Barbot, que se amplia e ganha potência bela agora); metaforicamente desde sempre, justamente na opção de seus curtas que é a de saber que o Rio é muito maior, muito mais rico, muito menos espalhafatoso do que o autoelogio determina como padrão para todos os de lá. E acumulou sensações, tanto quanto deve ter abastecido seus ideais sobre como pensaria Esse Amor que Nos Consome como a obra única e isolada, que ganha sua vez de independência em relação ao todo.
E temos um filme que costura todas essas suas partes com linha fina para emendar os pedaços que poderiam ser definidos como “histórias de doação à arte (à dança, ao teatro)”. Nada raro a existência de alguns que dedicam suas vidas a sonhos (no caso – aqui e na obsessão do diretor -, sonhos com arte, justamente), batalham, se juntam a aliados que os acompanharão por toda a vida (por vezes, com o amor potencializando essa ligação de ajuda e companheirismo: como acontece entre Gatto e Bardot), e permanecem brigando contra todas as dificuldades até chegar a um porto (sendo que esse porto não precisa ser necessariamente o último e definitivo, mas o que abriga o resultado da persistência). A busca por um espaço no qual pudessem desenvolver seu trabalho, onde sua companhia de dança encontraria um teto sob o qual poderiam ensaiar e talvez até se apresentar; sendo, também, local onde morariam. É dessa busca e achado; das dificuldades dos bailarinos (quase todos negros e evidentemente não os dos cartões postais – quase todos homossexuais) que tem de se dedicar muito, e o fazem por amor já que a subsistência raramente ganhará provida só dessa opção; do entender que o centro da cidade também faz parte desse todo tão particular a eles; desses trechos de vida que o filme assoma quando definitivamente costurado.
E o filme entende que são essas as histórias que o preencherão e emocionarão. Allan sepulta a possibilidade do preciosismo (cores e dança são canto de sereia para exibicionismos), mas não abandona o rigor que faz, também, dele diretor especial: acompanha com lentes serenas a chegada ao novo espaço no centro do Rio de Janeiro; aproveita a chance e observa com essas mesmas lentes conversas de ambos com moradores daquela região do Catete, sentados placidamente em bancos de praça (e mais uma vez traz para si esse compreender a riqueza que brota para além dos belos e da zona sul); cria uma lindíssima cena de dança e amores temerosos sob luz diáfana artificial, na rua, de rara beleza; faz da linha (agora no sentido literal) que costura, e dos panos coloridos, dentro da casa, alvo pictórico, com matiz indecisa, que desembocará, por fim, num belo espetáculo de cores. Ajuntamentos talvez sejam a melhor maneira de se falar no cinema, para quem inicia num outro formato: e o diretor tinha cacos, ou pedaços de panos, para tal.

