BRASÍLIA 2013: “O MESTRE E O DIVINO”, MUITO, MUITO MAIS QUE UM “FILME SOBRE ÍNDIOS”.

Confesso que, pessoalmente, tenho alguns problemas com documentários sobre índios. Em muitas oportunidades, o documentarista se apaixona pelo próprio tema e derrapa na hora de cortar o filme para o tempo que ele realmente deveria ter. Felizmente nada disso acontece no vibrante “O Mestre e o Divino”, longa que abriu a segunda noite da mostra competitiva do 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Tudo se passa em reservas e aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul, mas não se trata de um filme “sobre índios”. Muito mais que isso, vemos aqui um enfoque bastante particular sobre dois fascinantes personagens ao mesmo tempo muito próximos e antagônicos. O “Mestre” do título é Adalbert Heid, um alemão apaixonado pela cultura indígena que desde os anos 50 se estabeleceu numa aldeia Xavante, e de lá para cá dedica sua vida a gravar em vídeo as manifestações culturais deste povo. O “Divino” é, literalmente, Divino Tserewahú, jovem Xavante que decidiu seguir os passos do mestre e também documentar seu povo através do audiovisual. Ambos são unidos por fortes laços de amizade e admiração, ao mesmo tempo em que se encontram separados por uma selva impenetrável de diferenças culturais.

Colonizador até a medula, o branco europeu Heid chega ao Brasil com a clara proposta de implantar o catolicismo entre os indígenas. Durante décadas deu aulas, promoveu missas cristãs, se orgulha de ter criado palavras novas no idioma xavante para designar conceitos até então desconhecidos pelos índios, e até promoveu sessões de um tosco bang-bang alemão para a tribo. Por outro lado, Heid também se esforça para assimilar alguns conceitos primitivos, eventualmente sai à caça junto com os índios, e não se furta em se adornar como um autêntico xavante para participar de um de seus cultos. Nem que seja apenas para posar diante de sua própria câmera.

Já Divino é o representante de uma nova geração talvez mais consciente de seus valores. Aculturado, usufrui ao máximo da tecnologia disponível, tem I-fone e notebook, e quando criança chegou até a participar de uma patética comemoração do Dia do Índio num não menos patético programa da Xuxa. Quando Divino, inspirado por Heid, torna-se ele próprio um produtor audiovisual e passa a documentar sua aldeia não mais com a visão do branco, mas com a visão do índio, estabelece-se o conflito. Percebe-se nitidamente uma área de conflito entre o mestre e o pupilo, onde não faltam ciumeiras e alfinetadas de ambas as partes. Nota-se que o alemão “invasor” se sente “invadido” por um jovem concorrente. Enquanto Heid critica o estilo de filmar de Divino, argumentando que ele só mostra as pessoas falando e não enquadra nem uma árvore, nem um por do sol, Divino destila claramente seu desejo de consumo pelo equipamento de Heid, mais moderno e com mais recursos.

Numa cena crucial, Heid, visivelmente incomodado, reclama que, ao se dedicar ao audiovisual, Divino está abandonando suas próprias raízes culturais indígenas. E lhe pergunta se ele ainda sabe fazer os adornos artesanais típicos de seu povo. Divino lhe responde dizendo que esqueceu. Heid esboça um sorriso vencedor. E Divino imediatamente retruca dizendo que esqueceu, mas pode relembrar a qualquer momento, pois gravou em vídeo o processo artesanal.

O que eu pensava que seria “um filme sobre índios” a cada cena se revela ser um belíssimo filme sobre abismos culturais, colonização, dicotomias, raízes, funções do audiovisual, e uma vasta gama de conflitos pessoais.
Gravado em Mato Grosso do Sul, “O Mestre e o Divino” é uma produção pernambucana dirigida pelo mineiro radicado em Olinda Tiago campos.
Celso Sabadin viajou a Brasília a convite do Festival.