CINEMATO, PARA QUE OS CINEMAS NÃO EXIBAM SEMPRE O MESMO FILME.
“Cuiabá tem cerca de 30 cinemas. E quase todos para exibir o mesmo filme. Não é de estranhar que a nossa juventude carregue uma cultura tão americanizada, tão longe das nossas verdadeiras raízes”. Somente estas palavras, ditas por Luiz Borges na abertura do 19º Festival de Cinema de Cuiabá, já seriam suficientes para justificar a retomada do evento. Sim, todo festival de cinema realizado no Brasil representa um foco de resistência cultural. E o de Cuiabá, um dos mais tradicionais do país, estava ameaçado de não acontecer este ano, como já não aconteceu em 2012 e 2013. Felizmente, porém, uma verba emergencial da Secretaria de Estado da Cultura viabilizou o evento deste ano, produzido a toque de caixa, para não morrer.
“O Festival poderia estar completando agora seu 21º aniversário, mas tudo bem. Quando Janete Riva, Secretária de Cultura de Mato Grosso, me ligou perguntando se eu acreditava em sonhos, eu nem poderia imaginar que daquele telefonema surgiriam os recursos necessários para a realização do evento, agora em 2014”, afirma Borges, idealizador do Festival.
Desta forma, compreende-se porque a noite de abertura do 19º Festival de Cinema de Cuiabá – rebatizado recentemente de Cinemato – tenha se revestido de um certo caráter protocolar e político. Afinal, o Brasil é um país onde política e cinema ainda caminham de maneira muito atrelada.
A noite desta quinta-feira (20/02) contou com a exibição de três curtas em competição e um longa especial.
O primeiro curta foi “O Castelo”, que o premiado cineasta Rodrigo Grota realizou em parceria com televisão paranaense RPC. Produzido originalmente para TV, o filme funciona muito bem também na tela grande, e explora as possibilidades de um castelo abandonado “que dizem ser mal assombrado” (nas palavras do próprio diretor) ao ser visitado por um grupo de jovens.
Na sequência, foi exibido o matogrossense “Paraizoo” (foto), de Amauri Tangará, cineasta conhecido nacionalmente pelo seu premiadíssimo curta “Pobre é Quem Não tem Jipe”. Em “Paraizoo”, uma intrigante câmera subjetiva colocada ao rés do chão investiga metaforicamente a destruição
dos campos de algodão das lavouras de Chapada dos Guimarães. O clima, que mistura o onírico e o fantástico, remete à melhor fase de M. Night Shyamalan, chegando a lembrar o longa “A Vila’, assinado pelo cineasta indiano.
Finalizando a sequência de curtas, foi exibido “Años de Luz”, que o amazonense Aldemar Matias realizou enquanto estudava na Escola de Cinema de Cuba. Trata-se de um belo e sensível documentário sobre Gregório Rivera, fotógrafo que acompanhou a revolução cubana. Além de impactantes fotos da época, o filme ainda registra a amarga e irônica situação de um profissional da imagem, que aos 93 anos, sente a profunda tristeza de não se recordar com clareza das situações em que fez seus melhores trabalhos.
A noite de abertura do 19º Cinemato foi encerrada com uma homenagem a Zelito Viana e com a exibição especial de “Avaeté – Semente da Vingança”, que o cineasta dirigiu em 1985. “Eu nasci no Ceará, me formei profissionalmente no Rio de Janeiro, mas minha cabeça foi feita em Mato Grosso, onde eu conheci o Brasil profundo”, afirmou Zelito durante a homenagem.
Mais informações sobre o 19º Cinemato em www.cinemato.com.br
Celso Sabadin viajou a Cuiabá a convite da organização do evento.
http://vimeo.com/86904226

