CONTINUA A COBERTURA COMPLETA DO FICA 2015. ACOMPANHE.
Sob licença do site Cinequanon.art, o Planeta Tela contnua a reproduzir a cobertura completa diária de Cid Nader para o FICA 2015 – Festival de Cinema e Vídeo Ambiental, realizado na cidade de Goiás. Acompanhe:
Sexta-Feira, 14 de agosto.
E não é que acaba surgindo justamente da Mostra Competitiva FICA o melhor do filme do evento? Lembrar que pouco antes do início do festival eu próprio me questionava a razão de vir, como critico de cinema (basicamente), a um festival onde a curadoria da mostra principal me parecia não optar pelos filmes como “cinema mesmo”, preferindo mais escolhê-los pelas temáticas propostas. Na quinta-feira cruzei com o impactante (pela pobreza revelada) Guinée: Le Territoire des Oubliés (sobre io qual escrevi). E ontem sexta-feira, com o melhor filme do evento – cinema mesmo, mesmo – o curta de São Paulo. Matas, de Ricardo Martensen & Felipe Tomazellim de raríssimo cuidado com e luz, onde as lentes vagueiam com certezas, em que há edição para criar ritmo, de personagem único raro sob natureza impensável… E muito, muito mais. Porém, adiantado da hora para postar a matéria: falarei dele ou na postagem de amanhã ou no encerramento… Mas feliz por finalmente ter um filme completo, ainda mais por ser na Competitiva do FICA.
MOSTRA ABD CINE GOIÁS
Viagem na Chuva
Direção: Wesley Rodrigues
Duração: 13min.
País/Ano: Goiânia
No ano de 2013, Wesley Rodrigues surgiu como que de repente com Um Autêntico Western que pareceu a mais do que era, na verdade, por ser trabalho surgido em Goiás, nem tanto afeita a trabalhos com seres inanimados – ao menos sem ganharem destaque pelos festivais do país. Era a animação que destacava de outras – sempre lembrando que estamos com grandes animadores por aqui e nossa produção anda bem constante e de qualidade -, cheia de variações e referências, mas principalmente primando pela boa qualidade no trato final, no ritmo dos personagens, que se moviam de forma nada econômica nos trabalhos manuais do diretor. Agora, 2014, surge com Viagem na Chuva, de outro modo de concepção – melhor dizendo: com outros modelos de resultados na tela -, talvez visualmente mais rico que o antecessor, com certeza extremamente mais colorido, mais barulhento e sonorizado, novamente bem rico na movimentação, mas, talvez, mais excessivo, quando pensado no todo: quando se sai do filme sem a noção exata de até onde partes diversas existiram mesmo, ou se existiu ali um amalgamado que criou massa quase indivisível às sensações.
Longe de ser ruim – bem longe mesmo -, todo o trabalho realizado em 2D de muitas cores fortes acaba por cansar um tanto a mais a retina, pois na falta de espaços ou diminuição do ritmo de luz jogada na tela cria-se sensações de atropelo, onde não se notam os detalhes (que são muitos e com certezas fruto de muito empenho), onde a sensação de sonho ruim extrapola da história para o espectador. Há bons efeitos de transparência, algumas belas (e poucas) passagens de um estado de cor para o outro, quando o excesso é rapidamente substituído por cores mais brandas (“mais sépia”) – isso na fusão entre passagem ‘onírica” e a parede do quarto, no quadro pendurado na parede, por exemplo – , e beleza estranha nos traços… Tudo que somente reforça o lamento pelo excesso, numa animação que poderia render muito mais se Wesley talvez se conformasse com a certeza de que por vezes menos pode fazer muito bem.

Mañana C’est Carnaval
Direção: Alybe Fratari
Duração: 19min.
País/Ano: Goiânia
Mesmo em se sabendo que não existem rincões isolados em um mundo totalmente conectado pelas tecnologias; mesmo sabendo que impomos preconceitos (parece uma coisa automática mantida por algo que martela internamente: “modernidade, você é de São Paulo, ou do Rio de Janeiro”) a suposições nossas quanto aos comportamentos ante as instituições sociais em cidades que não são dos campos difusores; mesmo já constatadas que as ligações de comportamento extrapolam as marcas rígidas culturais (isso, porque Mañana C’est Carnaval se passa em um carnaval com pegada de periferia carioca, sendo que ele está situado em Goiânia). Mesmo com todas essas pré-conceitualizações teoricamente derrocadas, ainda dá para se espantar um tantinho a mais com o vigor “mundial/global” que abastece, de mote e forma, esse curta de Alyne Fratari.
Ao optar por trazer para suas “linhas” de atuação o ícone de uma certa modernidade e contracultura tupiniquim que é o músico Arrigo Baranabé (que, afinal, empresta a trilha sonora, e uma atuação num tom “Clara Crocodilo” – evidentemente acima do tom -, que cria estranhamento interessante e contraste a um time de atores mesmo, que manda bem, inclusive acima do que é padrão no universo curtista), percebe-se que ela queria falar de situações de padrão questionador que poderia brotar de qualquer urbe mais antenada: em contextos, temporal e universal. Tecnicamente (captações e edição) o trabalho cumpre o prometido desde seu primeiro frame: há inventividade nos giros da câmera no bar, há boa resolução ambiental para representar os ambientes filmados, e há bom dinamismo em parte do andamento (edição).
Talvez por estar estruturado em ambiências que questionam instituições (e através de uma tipicamente nossa que é o carnaval – de um modo ou de outro essa festa é uma instituição nossa, mais especificamente carioca ao modelo optado para o filme), quando o filme avança e alcança outros momentos intermediários fora da segurança do “ambiente bar”, algumas dificuldades ou opções enfraquecem aquela pegada inicial, para estabelecer esses instantes em algo que lembra atitudes teatrais (de contestação gritada que situa o trabalho numa especificidade gritalhona do momento – 2011) São instantes intermediários que parecem não dialogar bem com as intenções primárias. Isso não se dá no todo, apenas em parte, restando mais marcadamente na memória as tentativas ousadas de fazer entender que em instantes da festa de Momo, tudo se dá. Se tivesse conseguido se manter pelo tempo todo nesse “ambiente experimentador” teria sido muito melhor

Céu Vermelho
Direção: Ângelo Lima
Duração: 11min.
País/Ano: Goiânia
Ângelo Lima, brigador pelas coisas de Goiás e pelo que é do meio-ambiente, professa um cinema e modo de ser que rescindem antigos, o que o faz questionar novidades na arte (no cinema, por onde se expõe e ao seu modo e enxergar o mundo), questionar o que é do sistema de distribuição, leis e incentivos locais, para ser sujeito tanto amado quando odiado (creio ser interessante expor isso dele, pois a mim, como crítico de cinema interessa sempre discutir a obra, mas como ser humano, afinal, impossível passar “impermeabilizado” ao agito/grita que sua presença causa nos locais, que são quem o conhece, sempre fazendo questão de emitir seus juízos de valor). E também, porque sempre me parece evidente, a cada curta que vejo seu, que seu modo de ver as coisas está todo ali depositado.
E está novamente em Céu Vermelho todo esse jeito intuído: deslocando-se a Congonhas do Campo (MG), para revelar o que as empresas de mineração do país estão causando de malefícios à cidade e, principalmente, às frágeis obras em Pedra Sabão do mestre Aleijadinho. O curta é bastante simples na captação das imagens, que surgem cruas na tela, quase sem trabalho de melhoria na edição (talvez opção, por ser cinema de acusação… talvez compreensão equivocada – o que será ruim – do que são os cuidados e tratos com a fotografia, mesmo com tomadas que por vezes evoquem a sensação do desejo de revelação de clima apocalíptico, pela amplidão de acampo, ou pelo céu como pano de fundo); e bastante complexo, nos trechos orais, com narração off de trechos de forte impacto (o que ocorre mais ingenuamente na trilha sonora repleta de trechos da música clássica). Como se fosse um resumo dessa figura do diretor que tanto nos contam os locais, o filme é de fragilidades (técnicas) e de potência (no objetivo da denúncia).
O Dia Secreto
Direção: Benedito Ferreira
Duração: 5min.
País/Ano: Goiânia
Estranho de maneira pueril esse curta-metragem de Benedito Ferreira. Estranho porque tenta, desde o início, quando números vão aparecendo na tela para preceder sequências ou cenas que não parecem propostas a serem divididas mesmo em esquetes para valer, a recriação de trabalhos onde o “anormal” transitará pela tela, sem nenhuma necessidade de explicações para os atos encadeados, e ainda mais sendo tais atos de feituras poucos comuns (no caso: uma mulher; numa cozinha; batendo uma massa; entediada ou triste – só vendo ao filme se saberá -; uma conversa radiofônica com áudio alemão completando a banda sonora – creio ter pescado palavras que falavam de culinária por lá, como rosbife, manjericão, alecrim -; sob iluminação meio opacizada…), similarizando um tanto do que é de curtas-metragens nórdicos, ou mais distante no tempo, o que era de um certo momento no cinema independente ianque ao momento do surgimento de Sundance…
Pueril, porque o avançar dos números levará o público a desfecho triste da história, que destinado pelos caminhos como o foi porque, imagino, na cabeça do diretor haveria a necessidade de “inventar” algo a mais do que somente encaminhar: e isso é feito bem sim, mas deixando retrogosto de que foi assim como tentativa “necessária” de marcação de território, de diferenciação ao que anda sendo feito de modo mais comum… Um curta que passa: mas poderia mais.
1989
Direção: Rei Souza
Duração: 11min.
País/Ano: Anápolis
Rei Souza criou um curta que poderia ser classificado como operístico. Trabalho que inicia com aspectos mais “lentos”, quando imagens de noticiários de TV contam do momento da primeira eleição direta para presidente (1989, evidentemente), fazendo crer que estaremos diante de algo que nos contará por palavras e documentos o que desejará ver contado. Numa guinada, imagens e sons tomam o espaço, o temo se transfere para os dias atuais (eleições presidenciais de 2014), a ambiguidade do proposto se estabelece (ambiguidade no sentido político mesmo, quando não se sabe sobre se sua peça “acusatória” tem destinos e desejos de alguma tendência), enquanto o confronto dos tempos e dos meios de explanação no filme alternam.
<em1989< em=””>passa a ganhar variações, dissonâncias, atonalidades e também ritmos mais complexos, ricos e “compreensíveis” (em oposição), como se com momentos épicos preenchidos por tomadas que exploram o humano em meio a uma natureza que é selvagem de alguma maneira, tendo de brigar e se adequar e (e com) ela: natureza, metáfora para o que o sistema político nos exige com toda sua potência possível de modificar e destruir, mas sempre com força suficiente para levar, conduzir, atropelar, por vezes soterrar. Fazer essa comparação com a música nesse documentário, na realidade me parece ser a maneira mais justa para defini-lo, decifrá-lo, sem o excesso de palavras eu ele mesmo busca evitar. A maneira imaginada, num crescente do “tom”, para o desfecho que pode ser repetido e repetido (como nas óperas) revelou-se grande sacada. E temos, assim, um filme.
O Esquema
Direção: Matheus Leandro Amorim
Duração: 20min.
País/Ano: Anápolis
O que é muito curioso mesmo nesse curta-meytragem anapolino, O Esquema, é o fato e ter sido gerado a partir da premiação do ano de 2013 (texto escrito durante o Festival de Anápolis de 2014), quando com o filme Bilhete – mais pleno de novidades do que tem sido comum encontrar nos trabalhos daqui -, surgiu, junto com uma verdadeira trupe de amigos e colaboradores, para colocar mais esperança em quem deseja notar avanços. Novamente, pra comprovar que trabalha mesmo em equipe – o que deve significar forte compreensão de que o cinema é de estrutura complexa e exigente, já que arte técnica – Matheus Leandro Amorim de Souza subiu ao placo cercado dos que colaboraram para o novo filme, deixando claro, por palavras dele e de diversos lá em cima, que pensa mais à frente, pensa mais na elaboração de toda uma estrutura que possa sustentar as jornadas que deverão vir.
Só que nem sempre é de passos certos e firmes que se fazem início de jornadas. Ao contrário do filme anterior – quando havia nele uma espécie de singeleza, algo como distanciamento dramático do que constato aqui em Anápolis e algumas outras regiões do país, de cinema incipiente -, Matheus e sua equipe tentaram uma espécie de sátira ao Brasil da caricatura, onde os espertos são alçados ao papel extremado de sabidos e trapaceiros, onde os coitadinhos ganham nuances heroicas, e no qual tudo pode ocorrer, desde que se consiga brechas para emendar “um jeitinho”. Ir à caricatura de um país, por si só, não significa equívoco: desde que, se essa caricatura for feita em cinema, se consiga reproduzi-la ou inventá-la com sagacidade e fluidez.
No caso deste curta, o que se nota de imediato é a mesma “pegada” mais “inocente”, digamos, ainda embutida em seu modo de trabalhar e compreender a vida: o que casou muito bem num filme sobre criança e mãe, como foi ano passado, mas que deixa-as ainda falhas na compreensão dos mecanismos de construção de filmes mais evidentes, quando se vai ao trato de assunto em mundo adulto. Aqui, nesse novo curta, as deficiências saltam mais aos olhos, os modos de atuação – que foram pensados caricatos, obviamente – poderiam ir mais ao escracho, a fluidez se revela um tanto travada (nas emendas das partes, se constata a falta de material para que se não as notemos tão evidentes). Há esforço, sim, mas creio que mais bagagem, conhecer mais cinematografias, como cito acima, é imprescindível para que o talento se adense e se ganhe músculos, tônus.

