DIA DE FAROESTE NA 8ª MOSTRA CINE BH.
Dois faroestes, um clássico e um latino americano, marcaram o terceiro dia da 8ª Mostra CineBH, aqui na capital mineira. O clássico foi uma reapresentação em blu-ray de “Sangue de Heróis”, que John Ford dirigiu em 1948, tendo John Wayne no papel principal. Bota clássico nisso. E o latino-americano foi “El Ardor”, uma coprodução entre Brasil, Argentina e México que faz uma releitura estilizada de alguns antigos cânones da mitologia do gênero western.
Escrito e dirigido pelo argentino Pablo Fendrik, “El Ardor” enfoca uma disputa por terras em regiões inóspitas banhadas pelo Rio Paraná. Um violento grupo de pistoleiros é incumbido por poderes que nunca aparecem de desalojar os legítimos donos de suas propriedades. Quem não aceitar “vendê-las” será morto. Sabendo da proximidade do perigo, João (Chico Díaz) recorre á ajuda de Kai (Gael Garcia Bernal) para que ele proteja sua família dos assassinos. Incluindo sua bela filha Vania (Alice Braga).
Nasce aí um dos primeiros mistérios do filme: quem é Kai? Um letreiro inicial já havia provocado o imaginário da plateia informando sobre uma determinada lenda de protetores seres míticos que habitariam as florestas à beira do Paraná. Mas não é exatamente pelos rumos da mitologia que o filme segue. Traçando um paralelo com as clássicas estruturas dos westerns em que “El Ardor” se baseia, Kai aqui seria o “índio”, o ser sintonizado com a natureza, conhecedor dos mistérios das plantas e dos animais, incapaz de usar uma arma de fogo, nem em casos de extrema necessidade. Ele será o guardião de Vania na violenta jornada que será empreendida mato adentro.
“El Ardor” é uma espécie de exercício de estilo nesta tentativa de transpor o faroeste norte-americano para a floresta sul-americana. Sai o deserto da Califórnia, entra a mata fechada; sai o criador de gado ameaçado pelos bandidos, entra o pequeno posseiro da cultura de subsistência. Vingança, caçada humana, terra devastada, todos os ícones do western estão lá, com direito até a duelo final. Tudo muito bem produzido, fotografado com precisão e montado com talento. Se os desertos americanos pedem gigantescos planos abertos e grandes panorâmicas, a mata fechada combina mais com sufocantes enquadramentos próximos, enquanto o clima de tensão e suspense é mantido com muita competência por Fendrik, que não deixa o interesse do público diminuir durante toda a hora e meia da projeção.
Sente-se apenas a ausência de um roteiro talvez um pouco melhor elaborado, menos unidimensional, o que não chega a comprometer este belo trabalho que recebeu nada menos que 10 indicações da Academia de Cinema Argentino. Fora que o olhar de ternura, compaixão e resignação que João lança para sua filha, no momento mais crucial de sua vida (não vou contar, tem que ver o filme), já vale sozinho o preço do ingresso.
Celso Sabadin viajou a Belo Horizonte a convite da organização do evento.

