DOIS CURTAS CEARENSES ENCANTAM A MOSTRA DE TIRADENTES.
A tarde de ontem (28) reservou duas boas surpresas para os fãs de curtas metragens (que, aliás, não são poucos): “Princesa”, de Rafaela Diógenes, e “Raimundo dos Queijos”, de Victor Furtado. Ambos produzidos no Ceará.
Talvez a expressão “boa surpresa” não seja a mais indicada para adjetivar “Raimundo dos Queijos”. Afinal, trata-se de mais uma obra do Coletivo Alumbramento, que tem deslumbrado crítica e público presente em festivais de cinema pelo país. O longa “Estrada para Ythaca”, o curta “Azul” e o recentíssimo “Os Monstros” (também exibido nesta edição da Mostra Tiradentes) são alguns exemplos do ótimo trabalho desenvolvido por este grupo. Na mesma linha, “Raimundo dos Queijos” encanta pela autenticidade de seu tema, pela simplicidade de sua narrativa, e pelo talento de sua composição cinematográfica. A ação se desenvolve ao redor de um rapaz que se utiliza de bares de Fortaleza como fontes de inspiração para suas pesquisas e criações poéticas. O personagem central – anônimo e solitário – convida silenciosamente o público a entrar neste universo e, junto com ele, descobrir os vários e ricos desdobramentos de micro universos que compõem esta simples complexidade tão brasileira conhecida como boteco. Enquanto a câmera de Victor Furtado passeia pelos gestos e olhares dos tipos humanos que passam pelo lugar, a plateia no cinema se alumbra com mais uma pequena preciosidade do grupo cearense. Com direito a um final intrigante e poético.
Aliás, vale dizer, pessoalmente sou fã de curtas metragens com final. Final feliz, final infeliz, final em aberto, final poético, final metafísico, patafísco, nucelar, não importa. Mas final. Acredito que já não engana mais ninguém aquele tipo de final – muito usado em curta metragem – que parece que ficou faltando verba para filmar a última cena, tudo em nome daquele conceito que “quem encerra o filme é o espectador”. Não é bem assim. Final é bom e a gente gosta. Fecha parênteses.
Já “Princesa”, de Rafaela Diógenes, este foi realmente uma surpresa. Bom, menos para quem já o tinha visto no Primeiro Plano 2010, o festival de cinema de Juiz de Fora, onde o curta ganhou dois prêmios, inclusive o de melhor atriz para Ana Luiza Rios. A jovem e estreante diretora demonstra grande talento ao captar a solidão de uma mulher que trabalha como animadora em festas infantis, vestida igual à Branca de Neve de Disney. Com planos precisos e riquíssimos tempos silenciosos, desvenda-se de forma crua e cruel um misto de desilusão e nostalgia de uma infância que deixou mais esperanças que concretizações.
“Princesa” é um curta metragem, na melhor acepção do termo. Com proposta de curta, estrutura de curta, tempo de curta e linguagem de curta. Mais aborrecido que curta sem final, é curta que queria ser longa. Felizmente, não é o caso de “Princesa”, filme que, inadvertidamente, iria dialogar intensamente com “Riscado”, longa metragem que seria exibido naquela mesma noite, na mostra Tiradentes.

