EDU FELISTOQUE FALA SOBRE SEU NOVO FILME, O DRAMA POLICIAL “INVERSÃO”.

Por que Inversão e como surgiu a ideia?
EDU – A ideia de fazer Inversão saiu de uma outra grande paixão minha que são os documentários. Eu me lembro muito bem quando estava filmando “Território 9.8”, ainda inédito, e colhendo vários depoimentos, tomei contato com uma história que me pareceu absurda e me fez lembrar de uma frase de uma música do Nando Reis cantada pela Cássia Eller: “O mundo está ao contrario e ninguém reparou”. Era uma história muito engraçada até um certo ponto de vista, e me foi contada por um imigrante, um senhor de idade do bairro da Mooca (SP).
Seguinte: o dono de um mercadinho estava com problemas financeiros e resolver sequestrar o próprio vizinho, o dono de um posto de gasolina, que ficava bem em frente. Ele contratou dois bandidos, fez o sequestro, recebeu um resgate, digamos de 100 mil reais, e a princípio deu tudo certo. Mas os criminosos que ele contratou sentiram que ainda podiam tirar uma grana do dono do mercado. Eles chegaram então no dono do posto e disseram que sabiam quem tinha organizado o sequestro. Foi aí que o dono do posto disse que pagava mais um dinheiro para que para eles sequestrassem, desta vez, o dono do mercado. E assim eles fizeram. Sequestraram o dono do mercado, que acabou pagando um resgate de 150 mil reais ao dono do posto, que saiu lucrando com o próprio sequestro. E estamos falando de pessoas de classe média, e não de gente esquecida pelo sistema.

A classe média está se criminalizando, segundo a sua visão?
EDU – De certa forma, sim. Veja, eu comecei a perceber que de tanto as coisas estarem ruins, de tanto mostrar a miséria na mídia, em todo lugar, tudo parece perder a força. Se a gente está no sinal e vê crianças pedindo esmola ou lavando vidro, isto já é clichê, a gente nem liga para eles, não liga para mendigos, não está nem aí com nada.

De tanto a gente ver tudo isso, o interesse pelos problemas sociais acaba ficando menor ainda, tudo fica totalmente banalizado. Você vê no noticiário gente da classe média alta assassinando os pais, gente de paletó e gravata – outro clichê – dando altos golpes, que prejudicam muito mais a sociedade do que mero traficantezinho.
Não diminuindo o problema, eu digo que a observação é sempre dada à violência na periferia, nos invisíveis, que estão do outro lado do abismo. Eu trago para meu filme os grandes golpes desta sociedade falida, que é a classe média. Eu reuni num primeiro roteiro algumas coisas que eu vi, ouvi, e algumas que eu até vivi, até chegar no roteiro final de Inversão.

O filme baseado em alguns fatos reais, em outros que fiquei sabendo como reais, em outros que ouvir dizer e até em fatos que serão reais, tamanha é a previsibilidade da violência da nossa sociedade.

Como assim, “serão reais”?
EDU – Só para dar uma ideia, depois do filme montado, aconteceu praticamente a mesma história do enredo do filme na vida real. E por duas vezes! Tenho até dois recortes de jornais sobre isso. O filme antecipou o que iria acontecer.
Além disso, tentei fazer de Inversão um filme de camadas, sempre me perguntando se um filme poderia ser, ao mesmo tempo, de arte e comercial. Esta divisão entre comercial e artístico é válida? Quem afinal inventou isso? É uma discussão enorme. Então, na primeira camadinha, eu imaginei em fazer um entretenimento, um suspense. E na segunda camada, de reflexão, um drama psicológico. Resolvi discutir o papel da mulher no poder, tanto no poder crime como na justiça. Foi aí que criamos as duas personagens femininas principais, uma do Bem e outra do Mal.

Também discuti um pouco sobre maniqueísmo, aquela coisa de somos do Bem, mas também às vezes somos do Mal. Ninguém é tão do Bem assim, e ninguém é tão do Mal assim. É uma surpresa. Não sou religioso, mas eu me lembro daquela passagem da Bíblia onde Jesus vê os mercadores na porta do templo, fica p… da vida e quebra tudo. Pois se até Jesus teve seu momento de raiva, de quebrar tudo, quanto mais o sujeito comum..! Tudo depende da pressão, do limite de cada um.

De certa forma, cada um de nós tem um preço?
EDU – Eu diria que cada um de nós tem um custo, um valor, um limite, e eu procuro discutir isso no filme. É a discussão deste momento, desta história que todos os males do Brasil são originados em Brasília, o que não é verdade. Se a gente começar a acreditar que todos os males do nosso país emanam de um poder central, a gente vira as costas, se omite, e começa a acreditar que não adianta fazer nada.

Afinal, qual é a nossa identidade, qual é a nossa função em tudo isso? Estamos aqui porque somos descendentes de vários povos, mas desde sempre o colonizador não chegou ao Brasil em busca de uma terra prometida, não. A ideia era mesmo a expropriação, ganhar o máximo de dinheiro e voltar para a terra natal. Só que alguns não conseguiram. Outros não conseguem ir embora porque começam a criar laços e filhos, netos e tudo o mais. Existe um rancor. Ninguém se sente muito brasileiro porque nem é brasileiro tanto assim. Acredito que em 100 ou 200 anos este conceito deve mudar. Mas, por enquanto, a lei de tirar o máximo de vantagem sobre o outro existe mesmo, a ganância existe mesmo.

Um empresário não fica quieto nunca, não se satisfaz nunca, ele nunca chega num momento e diz “estou bem” ou “é isso que eu quero”. Ele está sempre querendo mais, mais e mais, e o filme fala sobre isso também. Esta inversão de valores é colocada no filme de uma forma, como eu disse, primeira de entretenimento, e depois mais pesada de reflexão. Principalmente em cima das mulheres do filme. A gente consegue montar esta inversão no filme.

Como foi a pareceria com o roteirista Maurício Fernandes?
EDU – Fiz o primeiro, segundo e terceiro tratamentos do roteiro sozinho. No final, chamei o Maurício Fernandes, porque eu já estava impregnado do filme e poderia cometer alguns erros, então eu sempre faço isso, adoro fazer isso. Ele veio e contribuiu bastante. Ele contribuiu com a história da primeira camada de entretenimento. Ele foi mais por aí. Antes os empresários não eram de terno e gravata. No Brasil, país tropical, muitos não andam assim, mas ele trouxe isso. Ele trouxe uma classe mais bem vestida, que pega nas armas também. Você fala: “parece filme americano”. Não, não é . É que tem um momento em que a gente precisa tomar mais cuidado com os bem vestidos do que com os mal vestidos. Então a gente traz isto para cá também, a história de desconfiar das pessoas bem vestidas. Tem aquela música que diz “Eu não confio em ninguém com mais de trinta anos”, e eu não confio em ninguém com mais de trinta ternos.

Resolvi trabalhar a relação do elenco com o roteiro de maneira diferente. Primeiro eu entreguei o roteiro para todos os atores. Depois de dez dias, retirei o roteiro deles todos, de surpresa. Como eles já haviam “entendido” o filme, tirei o roteiro deles para extrair a forma mais expressiva do personagem que está dentro de cada um deles. A câmera, a linguagem e a montagem cuidaram do resto.

A montagem foi fundamental, porque ela reduziu os tempos “em branco” que existiam entre um diálogo e outro. Tempos que só a montagem poderia aproximar. Mas era intencional. Gostei bastante do resultado, da surpresa que tudo isso causou.

Com isso, o núcleo dos personagens policiais, por exemplo, teve uma mudança boa. Foi um presente que aconteceu durante a filmagem, tanto que havia dias que eu sentava na calçada e escrevia mais cenas antes de filmar por causa dos policiais, porque eles realmente foram muito bem. Não que o outro núcleo não tenha sido. O outro núcleo era um drama psicológico mesmo, coisa pesada, tensão de olhares. Este não, este era a busca pela solução do caso, exatamente para se livrar do caso, e qualquer coisa valia. Esta era a ideia.

E a escolha do elenco?
EDU – O personagem Mendonça, o sequestrado, eu já escrevi pensando no Tadeu de Pietro. No caso da Giselle Itiê, que faz a sequestradora Mila, foi uma grande oportunidade de mostrar a competência dela como atriz, sua qualidade de interpretação, e não apenas pelos seus dotes físicos, como tem acontecido muitas vezes com ela. Eu gostava muito do tom arrogante que a Giselle empresta a seus personagens, mas sempre vi – em outros filmes e na TV – esta arrogância dentro de uma embalagem linda, maravilhosa. Eu queria entender como ficaria esta intolerância da Giselle num layout mais caído, mais jogado, mais sofrido. A ideia era exatamente desglamourizá-la, trabalhar com ela sem maquiagem, e foi o que fizemos: só usamos óleo de amêndoa em todos os atores, para que ficassem o mais natural possível. Afinal, eles estão numa mata fechada.

A Marisol Ribeiro faz um papel muito tocante…
EDU – Sim, a delegada Juliana. Eu sempre imaginei esta personagem interpretada pela Marison Ribeiro. Isso baseado em pessoas reais que conheci. Quem me inspirou esta personagem foi uma delegada que namorei. Comecei inclusive a namorá-la sem saber que era delegada, porque a gente combinou que não falaríamos um para o outro o que fazíamos. Só que eu comecei a perceber umas paranóias dela. Às vezes a gente estava num bar, ela dizia: “estes caras são bandidos”. Eu achava que ela estava dando mole para os caras, e eu ali… Até que um dia, ela me surpreendeu: enquadrou os sujeitos que estavam olhando para ela. Pegou uma pistola, e eu fiquei assustado, eu não sabia de nada. Ela, uma pistola, dois caras, e eu sem saber o que fazer. Uma loucura!

Comecei a pensar que era legal esta coisa de poder, eu submisso a ela. Um dia, nós estávamos conversando num bar ao lado da delegacia dela, e estava um barulho, a gente não se escutava, até que ela levantou deu um tiro para cima e pede: ” Silêncio, caralho!”, no meio de uma discussão que eu estava com ela. Pra todo mundo. Você imagina uma mulher dá um tiro para cima, todos pularam, e as pessoas olhavam em silêncio e ela disse: “agora a gente vai conversar”. Fui obrigado a conversar com ela e discutir a relação. De uma certa forma, esta cena está no filme.

A Juliana é uma recém-formada que prestou concurso para ser Polícia Civil e logo de cara a colocaram nuns casos muito complicados, e onde ela teve que mostrar seu lado masculino. E depois não consegue mais voltar àquela doçura de antes. Ela recém-formada, com aquelas convicções de arrumar o mundo, dar um jeito em tudo, no conceito que ela imaginava, e foi entrando no esquema policial, que exige um jogo de cintura absurdo. Esta é uma discussão que coloquei no filme. Entendi o mundo dela e fiquei fascinado. Esta experiência eu transferi para a personagem da Juliana. Como ficaria uma recém-formada num momento de ataques do PCC, quando não tem contingente suficiente para cuidar do caso. Todos vão atrás do PCC, e sobra ela para cuidar deste caso, ela vai tentando, e o caso se resolve por si próprio. Esta foi a introdução desta menina na polícia com este poder. Eu queria o contrário do estereótipo da delgada machão, sapatona, peituda. Eu queria uma coisa frágil, branca, pálida, cabelo escorrido, sem peito. De certa forma em alguns ângulos, feia e em outros, linda. Tinha um encanto, mas não tinha.
Foi o Caco Sousa, diretor de fotografia, que me apresentou a Marisol. Fiz um teste com várias atrizes, eu a coloquei no estúdio dando vários tiros, senti sua fragilidade, a voz fina, a falta do exagero interpretativo. Funcionou. É isso mesmo, é o que a gente tem. A gente tem este tipo de delegadas e policiais assim.

E o elenco masculino?
EDU – O núcleo que filmou em São Paulo encarnou completamente o espírito policial. Mesmo depois do corta, eu ia falar com eles, dava até medo! Estavam incorporados! Eu tinha que tirá-los do set, levá-los para outro lugar começar a falar sobre outras coisas, para tirá-los do personagem. Foi tudo muito, muito intenso, principalmente o Rodrigo Brassoloto, que faz o Carlão. O Wander Wildner (que faz o Ariovaldo)não é ator, mas ele convence demais na patifaria de um tira corrupto bonachão. Ele é músico, cantor, da banda “Replicantes”. Ele é um anarquista, que criou uma química ótima com todo mundo.

No filme tem até fuga e queda de avião!
EDU – O avião também foi ideia do Maurício Fernandes. Num primeiro momento eu havia imaginado os sequestradores fugindo de van. Achava que sequestro de avião era coisa de cinema americano. Mas aí nós pesquisamos e vimos que por quaisquer 300 reais, pelo interior, você dá um vôo de quase duas horas, num teco-teco, e ninguém te pergunta nada. E fomos por aí.
O maior problema era fazer o avião cair. Então fizemos vôos rasantes com um avião de verdade, como se ele estivesse realmente caindo, e depois utilizamos computação gráfica. Mas são apenas dois takes da queda em computação gráfica; o resto é o avião realmente. Mas o interessante deste avião é ele “caiu várias vezes”: foi feito um mock-up do avião em tamanho real, uma verdadeira “antropofagia” de pedaços de vários aviões que realmente caíram.

Em estúdio?
EDU – Nada! A equipe de arte saiu pelo interior atrás de aeroclubes, em busca de aviões que tinham caído. Nós montamos o nosso avião com restos de oito pequenas aeronaves acidentadas. A gente montou este avião caído no alto da Serra do Mar, em plena mata mesmo. Não é cenário. Para chegar lá é uma hora e meia, totalmente inóspito. A gente ia bem cedo, acabava acampando em barraca, chuva de verdade, alimentação escassa durante dez dias em que ficamos lá. O município mais próximo é São Bernardo do Campo, pela estrada velha. Era dificílimo. As interpretações na mata são verdadeiras. Cansaço, irritação, mosquitos, e tudo era de verdade mesmo. A ideia era ter uma pegada documental mesmo, uma busca pela interpretação verdadeira, uma coisa intimista.

Por isso que a câmera também é uma observadora, ela tem um olhar mais “mole”, mas “nervoso”, como no documentário. Tudo câmera na mão. Nós pedíamos chuva o tempo todo. Nós filmávamos com chuva direto, tínhamos problema com som direto, mas o que queríamos era muita chuva, o que acaba realmente deixando todo mundo irritado. Mas depois das filmagens era festa o tempo todo. A gente estava fazendo um filme independente, de recursos financeiros pequenos, mas a gente conseguia chegar bem próximo de toda aquela verdade que estava no roteiro. Coisas que funcionaram até melhor do que eu pensei.

Depois nós fomos até a de Camburiuzinho, onde ficamos por cinco dias para terminar. Uma praia que eu achei depois de andar 45 minutos nas rochas. Eu mesmo fiz as locações. Encontrei uma praia só de rochas, uma coisa que eu nunca tinha visto aqui no Brasil. Não tem coisa pior, quando você acha é um alívio encontrar uma praia, você vê que ferrou porque só tem rochas, água batendo em pedras. Você olha para os lados e não tem chance, o inferno está instalado.

Tudo em nome da veracidade. Teve cenas até que usamos prostitutas profissionais. Pode ser que na montagem na passe isto direito, mas na festa tem três prostitutas profissionais para dar o ar real. Eu queria uma coisa desta forma, queria estar tranqüilo, não queria que fosse de uma forma contida. Foi interessante trabalhar com elas. São profissionais. Tira a roupa , tira, agora trepa, trepa, então é muito bacana. Um barato que perguntaram o que elas estavam achando deste cinema, e elas responderam “nosso cinema é outro”, cinema pornô.

Inversão também discute um lado religioso. Por que?
EDU – Eu queria entender qual é o poder da fé, tanto positiva quanto negativa. É uma coisa bem brasileira sempre recorrer a estas forças quando a coisa aperta. Brasileiro não tem dinheiro para pagar um médico, então ele vai para o centro de umbanda, ou para o templo do Reino de de Deus. O dízimo é mais barato que o remédio ou a consulta. A esperança vinha das antenas de TV, e agora vem dos terreiros e das igrejas. Eu queria entender como é que fica este mundo, esta busca da justiça, e do arrependimento. A justiça pelas próprias mãos, de tão desacreditados. Que justiça é essa em que o cara está cometendo um crime e acha que está sendo injustiçado? Se estas forças realmente tem este poder de mudar o Destino, se é que existe Destino das pessoas.

O personagem que mais representa tudo isso é Darcy, interpretado por Edu Silva. No filme ele é homossexual, negro, macumbeiro, e ainda se enrola um com matador de aluguel sessentão, viciado em cocaína (personagem do Francisco Carvalho).

E sobre a trilha sonora?
EDU – A trilha é uma delícia, dirigida pelo Diogo Costa, irmão da cantora Céu. Ele vem de uma família de músicos maravilhosa. Ele soube compor bem com vários estilos musicais. Rola rap de Diadema e música clássica. E sem medo do clichê, a trilha é um personagem a parte. Eu falava para não por música, e aos poucos a trilha estava lá, sem ser notada. Eu sempre acho que a dramaturgia da cena, a fala do ator, os olhares e tudo o mais, são suficientes para passar a emoção. Mas o Diogo me mostrou que em vários pontos a trilha entra e dá a emoção, dá todo o impacto que é necessário sem a gente perceber que tem uma trilha, que na minha opinião, é ótimo.
Inclusive uma das maiores felicidades que o filme já me deu foi o Prêmio de Trilha Sonora no Brazilian Film Festival of Toronto. Imagine só. Um Festival que teve, entre outros concorrentes, um documentário musical sobre Arnaldo Batista e outro sobre Wilson Simonal, ou seja, dois filmes de imenso valor sonoro e musical! Ganhar um prêmio de Trilha tendo estes dois monstros como companheiros e competidores foi uma satisfação muito grande.

http://youtu.be/Fp1f-CLsp9c