EM BRASÍLIA, JOÃO JARDIM DISSOLVE OS LIMITES ENTRE FICÇÃO E DOCUMENTÁRIO.

Não tem mais jeito. Depois de “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho e agora com “Amor?”, filme de João Jardim exibido na noite de ontem (28/11) na Mostra Competitiva do Festival de Brasília, definitivamente estão rompidos e misturados os limites entre ficção e documentário. Cada vez mais os festivais terão dificuldades em dar prêmios diferentes para cada um destes gêneros. Abre-se toda uma nova discussão sobre esta interdependência cinematográfica. “Amor?” tem um “pé” em “Jogo de Cena”.

O filme alinhava depoimentos fortes e emocionados de pessoas que, por amor (com ou sem o ponto de interrogação do título) acabaram vivendo histórias de extrema violência. Até aí, seria um puro documentário. Porém, para preservar a identidade e o anonimato dos depoentes, as histórias – ainda que reais – são interpretadas por atores profissionais (e põe profissionais nisso!) que as interpretam como se eles próprios as tivessem vivido, sob a forma de depoimento.

É um grande momento do cinema brasileiro. O Cine Brasília, totalmente lotado, com cadeiras extras espalhadas pelos corredores, assistiu ao filme em silêncio sepulcral, sorvendo cada situação, cada palavra de cada história escancarada na tela. São situações reais que superam a ficção. Histórias de pessoas que – por medo, insegurança, patologia ou sabe-se lá o que – sentiam-se incapazes de colocar fim a relacionamentos extremamente doentios, pagando por isso o altíssimo preço do espancamento e da mutilação física e/ou psicológica. Os atores dão um show. Lilia Cabral, Eduardo Moskovis, Leticia Collin, Cláudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Julia Lemmertz incorporam seus personagens de uma maneira que – se alguém entrar no meio do filme, desavisado – vai achar que os depoimentos são reais.

João Jardim (na foto de Aline Arruda, ao lado de Silvia Lourenço), que já havia encantado com “Janela da Alma” e “Pro Dia Nascer Feliz”, coloca definitivamente seu nome na lista dos grandes documentaristas brasileiros. Utilizando a fórmula “menos é mais”, Jardim fecha a câmera sobre seus atores e extrai deles toda a emoção necessária. Como contraponto, água, muita água em imagens de mares e piscinas que banham e acalmam as tensões e a violência do tema.

Ao lado de “Transeunte”, “Amor?” é, faltando apenas um longa para encerrar o Festival, um dos meus filmes favoritos ao Troféu Candango. Embora nunca se saiba o que pode sair de bolsa de mulher e de júri de festival de cinema.

Quanto aos curtas da Mostra Competitiva, “A Mula Teimosa e o Controle Remoto”, do paulista Hélio Vilela Nunes, já é um dos grandes favoritos ao Troféu Filme Fofo 2010, ao contar com leveza, poesia, simpatia e raríssimas palavras o nascimento de uma amizade entre um garoto do interior e outro da cidade.

Poucas palavras, amor e amizade também estão fortemente presentes no sensível curta pernambucano “Café Aurora”, de Pablo Pólo, que enfoca o sentimento que nasce entre um balconista de cafeteria e uma bela cliente cega.

O 43º. Festival de Cinema de Brasília terá esta noite (29/11) a sua última sessão competitiva.

Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do evento.