FESTIVAL DE BRASÍLIA PULVERIZA PREMIAÇÃO.
A quadragésima-sexta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro encerrou-se na última terça-feira (24/09)com a entrega de 55 (sim, cinquenta e cinco!) prêmios para filmes nacionais (divididos em três categorias: ficção, documentário e animação) e filmes brasilienses (Mostra Câmara Legislativa). Não houve um filme que tenha recebido premiação consagradora (nada que evocasse o caso “A Hora da Estrela”, laureado com onze dos 14 troféus Candangos em disputa, em 1985). A premiação deste ano foi muito pulverizada.
O vencedor na categoria melhor filme de ficção – o poético “Exilados do Vulcão”, de Paula Gaitán – não recebeu nenhum dos outros prêmios da chamada “quíntupla coroa” (direção, ator, atriz, roteiro). E não houve coincidência entre as escolhas do Júri Oficial, da Crítica e do Público. O público preferiu “Os Pobres Diabos”, de Rosemberg Cariry. A Associação Brasileira dos Críticos de Cinema escolheu “Avanti Popolo”, de Michael Wahrmann.
Brasília assumiu, há dois anos, a controvertida divisão por gêneros. Divisão, registre-se, anacrônica, num momento em que são cada vez mais tênues as fronteiras entre gêneros e mais comuns as hibridizações. Na categoria documentário, o vencedor foi “O Mestre e o Divino”, de Tiago Campos, projeto do Vídeo nas Aldeias, coletivo de criação comandado por Vincent “Corumbiara” Carelli. O longa documental traz um sopro de alegria ao “filme de índio”, ao injetar grandes doses de humor à narrativa. Se faz assistir com imenso prazer. Seria uma obra-prima se assumisse postura mais crítica frente a um de seus protagonistas, o sedutor “Mestre” (o “funcionário de Deus” e cineasta salesiano alemão, Adalbert Heide, radicado em Mato Grosso desde 1957). Mesmo assim, graças ao bom humor do “Divino” (o índio e cineasta xavante Divino Tseruwahú) o filme nos revela muito da complexa relação entre missionários “civilizadores” (fanáticos monoteístas), e “selvagens” (índios politeístas submetidos à força avassaladora da catequese).
Os quatro melhores curtas do Fest Brasília foram o cearense “Lição de Esqui” (ficção), o carioca “Contos da Maré” (doc), o goiano “Faroeste, Um Autêntico western” (animação) e “O Balãozinho Azul” (melhor curta brasiliense).
Troféus para os mortos.
Parece que virou moda dar prêmio póstumo. O júri oficial do Fest Brasília duplicou ação do júri de Gramado 2013, que atribuiu a Walmor Chagas (morto em janeiro deste ano) o prêmio de melhor coadjuvante. Aqui, foram premiados Carlão Reichenbach (melhor coadjuvante, por “Avanti Popolo”) e o fotógrafo Aloysio Raulino (por “Riocorrente”, aliás, o grande injustiçado deste festival). Sara Silveira, sócia e amiga de Reichenbach, brincou, depois de receber e agradecer o prêmio do júri oficial: “Carlão ator! É duro, heim?!!!”. Até a equipe de repórteres e críticos do Correio Braziliense, que anualmente premia um “instante luminoso” do Festival, fez opção saudosa. Também laureou o trabalho de ator do saudoso Carlão.
Seria bom se, doravante, aos mortos prestássemos homenagens, deixando para os vivos os troféus (e prêmios em dinheiro).
Seminários e Olhar Estrangeiro.
O Festival de Brasília cresceu demais, teve seu primeiro caso (em quase cinco décadas de história) de longa-metragem com exibição interrompida por problemas técnicos (“Os Pobres Diabos”), alguns atrasos, uma noite quentíssima (problemas no ar refrigerado do renovado Cine Brasília) e debates que perderam o tom reflexivo e a serenidade verificada até dois anos atrás: quando se discutiam primeiro os curtas, depois um longa-metragem (fosse ele de ficção ou documentário).
O saldo da quadragésima-sexta edição – mesmo assim – é dos mais positivos: sessões lotadas todas as noites (primeiro no Teatro Nacional, depois no Cine Brasília) e uma programação de seminários de ponta. Estiveram em Brasília convidados internacionais apaixonados pelo cinema brasileiro (Randal Johnson dos EUA, Gian Luigi de Rosa, da Itália, e Stephanie Dennisson, da Inglaterra), para apresentar palestras substantivas e amparadas em ampla documentação audiovisual (como os norte-americanos e europeus levam suas intervenções em seminários a sério!). Discutiu-se, em outros momentos de todas as tardes dedicadas à reflexão, política cinematográfica com autoridades governamentais. Discutiu-se, também, o humor no Cine Brasileiro (com o craque uspiano Elias Thomé Saliba, autor de “Raízes do Riso”, somado ao “porta dos fundos” Ian SBF e à professora da UnB, Thereza Negrão de Mello). O Cinema em Alto e Bom Som — em tempos de “O Som ao Redor” indicado à disputa de vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro — motivou animado debate com time empenhado (Marcelo “Tropicália” Machado, Lírio Ferreira, Ana Riper, René Sampaio & Felipe Seabra). Houve espaço, ainda, para a ABD Nacional, agora presidida por André Leão, de 34 anos, discutir a “crise de representatividade ” no segmento audiovisual.
Abaixo a tabela dos premiados.
FEST BRASILIA 2013 – PREMIADOS
LONGA-METRAGEM (FICÇÃO)
“Exilados do Vulcão” (RJ) – melhor filme, melhor som (Fábio Andrade e Edson Secco).
“Avanti Popolo” (SP) – melhor direção (Michael Wahrmann), ator coadjuvante (Carlos Reichenbach, póstumo), Prêmio Abraccine, Prêmio Saruê, do Correio Braziliense, para Carlos Reichenbach (póstumo).
“Depois da Chuva” (BA) – melhor ator (Pedro Maia), roteiro (Claudio Marques), trilha sonora (Mateus Dantas, Nancy Viegas, bandas Crack e Dever de Casa).
“Amor, Plástico e Barulho” (PE) – melhor atriz (Maeve Jinkings), atriz coadjuvante (Nash Laila), direção de arte (Dani Vilela)
“Riocorrente” (SP) – melhor fotografia (Aloysio Raulino, póstuma), montagem (Paulo Sacramento e Idê Lacreta)
“Os Pobres Diabos” (CE) – melhor filme pelo júri popular, Prêmio Aquisição da TV Brasil.
DOCUMENTÁRIO:
“O Mestre e o Divino” (PE) – melhor filme, montagem (Amandine Goisbault), trilha sonora (Johann Brehmer).
“Morro dos Prazeres” (RJ) – melhor direção (Maria Augusta Ramos), fotografia (Leo Bittencourt e Gui Gonçalves), som (Felippe Mussel).
“Outro Sertão” (ES) – Prêmio Especial do Juri
CURTA-METRAGEM
“Lição de Esqui” (CE) – melhor ficção, roteiro (Leonardo Mouramateus).
“Contos da Maré” (RJ) – melhor documentário, melhor trilha sonora (Fábio Baldo).
“Faroeste, Um Autêntico Western” (GO) – melhor animação, melhor filme pelo júri popular.
“Tremor” (MG) – melhor direção (Ricardo Alves Jr), fotografia (Matheus Rocha), montagem (Frederico Benevides)
“Au Revoir” (PE) – melhor atriz (Rita Carelli), direção de arte (Thales Junqueira)
“A Que se Deve a Honra da Ilustre Visita Deste Simples Marquês?” (PR) – melhor direção de documentário (Rafael Urban e Terence Keller), Prêmio Abraccine, Prêmio Aquisição Canal Brasil.
“O Canto da Lona” (SP) – melhor fotografia doc (André Moncaio), som (Fábio Baldo).
“Todos Esses Dias em Que Sou Estrangeiro” (RJ) – melhor ator (Miguel Arraes)
“O Gigante Nunca Dorme” (DF) – melhor montagem (Ivan Costa e Dácia Ibiapina)
“Fernando Que Ganhou um Pássaro do Mar” (RJ) – melhor trilha sonora (Gustavo Fioravante e O Grivo).
“Sylvia” (PR) – melhor som (Frederico Benevides).
MOSTRA BRASILIA/CÂMARA LEGISLATIVA:
“Plano B” – melhor longa-metragem, montagem (Sérgio Azevedo)
O Balãozinho Azul – melhor curta pelo júri oficial, melhor curta pelo júri popular.
“Requília” – melhor direção (Renata Diniz), ator (Dimer Monteiro e Henrique Batista) roteiro (Renata Diniz), som direto (Victor Penington)
“Fragmentos” – melhor atriz (Patrícia del Rey), fotografia (Dani Azul)
“Palhaços Tristes” – direção de arte (Lucas Gehre), edição de som (Ricardo Pontes)
“Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa” – trilha sonora (Ivo Perelman, Matthew Shipp, Mot Manners e Simus Quarter)
Cidadão Brazza – júri popular (longa-metragem)

