GRAMADO 2015: LATINOS COMEÇAM BEM.
Por Celso Sabadin, de Gramado.
Dizem que goleiro e árbitro de futebol só devem ser elogiados quando o jogo termina, pois até o último minuto alguma grande bobagem pode acontecer. Talvez o mesmo raciocínio possa ser aplicado à curadoria de festivais, mas vamos, mesmo assim, correr o risco e elogiar: a julgar pelos dois primeiros longas exibidos, a Mostra Competitiva Latina do 43º Festival de Cinema de Gramado promete ser das melhores.
O primeiro filme latino exibido foi “En La Estancia”, escrito e dirigido pelo mexicano Carlos Armella, um estreante na direção de longas ficcionais, mas que já havia conquistado um Leão de Ouro em Veneza com seu curta “Terra y Pan”, de 2008.
Agora, ele conta a história de Jesus e Diego, pai e filho, os dois únicos habitantes que restam num pequeno povoado que se tornou fantasma após o fechamento de uma usina que operava no lugar. Ambos convivem neste cenário meio mítico, meio mórbido, até o momento em que surge Sebastian, um cineasta que deseja fazer um documentário sobre os dois solitários homens. Uma estreita e estranha relação surgirá entre eles, num filme repleto de simbolismos e jogos psicológicos, e que propõe um enigmático quebra-cabeças de mensagens cifradas.
Representando o México, “En La Estancia” tem coprodução com Argentina e Holanda, e é um trabalho bastante eficiente na criação de uma sutil atmosfera de suspense e mistério.
Na noite seguinte, foi a vez do segundo longa da Mostra Competitiva Latina: a coprodução Uruguai/Argentina “Zanahoria” (“cenoura”, em português), segundo longa do uruguaio Enrique Buchichio. Baseado em inacreditáveis acontecimentos reais, o filme é um thriller político ambientado no tenso clima que permeou as eleições uruguaias de 2004. Na ocasião, Alfredo e Jorge, jornalistas do pequeno semanário de esquerda “Vozes”, são contatados por um misterioso informante (papel de César Troncoso, ótimo como sempre), que lhes promete provas bombásticas referentes à “Operação Cenoura”, ou seja, a exumação de corpos de prisioneiros desaparecidos durante a ditadura, e enterrados clandestinamente em imóveis militares, com a intenção de eliminar qualquer rastro deles.
Tem início assim um empolgante jogo de gato e rato político-jornalístico que ganhou o apelido de “Watergate Latino”. O filme já foi premiado nos festivais de Huelva e Lleda (ambos na Espanha), e tem tudo para arrebatar alguns Kikitos.
Celso Sabadin viajou a convite da organização do Festival.

